terça-feira, 12 de junho de 2007

Entrevista: Nádia Campeão, presidente do PCdoB

Dando continuidade à série de contribuições para a Conferência "Caio Prado Júnior", painel de debates suprapartidários que o PPS promove para discutir os novos rumos da esquerda democrática e um projeto viável para o país, o Blog do PPS/SP entrevista Nádia Campeão, presidente estadual do PCdoB de São Paulo e integrante da sua direção nacional.

Paulista de Rio Claro, palmeirense, engenheira agrônoma, mãe de dois filhos, Nádia Campeão foi a primeira mulher a comandar a Secretaria Municipal de Esportes, Lazer e Recreação de São Paulo, na administração da prefeita Marta Suplicy (2001-2004).

Nádia ingressou na política em 1978, ainda estudante. De 1980 a 1990, morou em Santa Luzia, interior do Maranhão. Contratada como agrônoma, identificou problemas com a distribuição de renda e virou defensora dos agricultores. Também se destacou em movimentos feministas como diretora da União Brasileira de Mulheres e atuou na coordenação das campanhas da Frente Brasil Popular pela eleição de Lula à Presidência da República. Foi candidata a vice-governadora do petista Aloizio Mercadante em 2006.

Leia a entrevista exclusiva de Nádia Campeão ao Blog do PPS/SP:

Como foi a sua experiência à frente da Secretaria de Esportes de São Paulo? O que aprendeu nesta passagem? Quais as principais realizações? Como o esporte pode servir para a inclusão social de crianças e jovens? Podemos aplicar este modelo em outras secretarias e governos?

Foi uma experiência extremamente positiva, porque é uma posição em que se pode realizar ações concretas, sentir diretamente quais são as demandas da população e desenvolver/acumular elaboração de políticas públicas para a área de esporte e lazer.

O aprendizado é enorme: desde o conhecimento, ainda que insuficiente, da enormidade de desafios que representa a cidade de São Paulo, passando pela importância de se governar em permanente diálogo com a sociedade e as comunidades, até a difícil questão de administrar a coisa pública com rigor, eficácia e transparência.

Considero que as principais realizações durante o mandato à frente da Secretaria foram a implantação de programas continuados como o Recreio nas Férias e os Jogos da Cidade, a construção do projeto esportivo dos CEUs, a recuperação de parte da estrutura esportiva sob administração da prefeitura - reabertura de piscinas, de ginásios (com destaque para o ginásio poliesportivo do Pacaembu), do Centro Olímpico e outras.

Esporte é parte de processos educacionais para crianças e jovens e como tal deve ser visto. A questão social é enfrentada quando se permite o amplo acesso, sobretudo nas periferias, a estas atividades integrantes ou complementares da educação formal, seja em número de horas ou em diversidade de ações.

Na sua opinião, Nádia, o que é ser de esquerda hoje no Brasil?

É manter, no plano das idéias e das ações, postura de contestação ao sistema capitalista predominante no mundo atual, cuja essência é a exploração do trabalho e dos recursos naturais segundo a lógica do lucro máximo, o predomínio avassalador do capital financeiro determinando quais são os limites de desenvolvimento que cabe a cada nação, e a ação imperialista e agressiva das superpotências capitaneadas pelos Estados Unidos.

No Brasil, é a defesa de um projeto nacional que garanta amplo desenvolvimento sustentável com distribuição de renda, soberania frente aos ditames da estratégia neoliberal, a integração de projeto social, econômico e cultural da América Latina, a defesa e ampliação dos direitos sociais, a ampliação da democracia e a luta contra todo tipo de preconceito e discrimnação.

Para o eleitorado, ainda existe uma diferença clara entre esquerda, centro e direita?

Creio que sim, pelo menos para parte do eleitorado. E como o eleitorado brasileiro está cada vez mais informado e incorporado aos processos democráticos, a diferenciação entre posições políticas vai permanecer e será mais compreendida.

Por que os partidos políticos vivem hoje uma crise de identidade?

No geral, existe uma fragilidade dos partidos frente às lideranças políticas e partidárias. Os partidos são necessários para disputar as eleições, mas depois passam a ter papel secundário, são trocados sem que haja perda de mandato, suas decisões não servem como referência para os eleitos. E, em alguns casos, partidos se desgastam quando não praticam aquilo que pregam, alguns nem mesmo têm programa conhecido e consistente.

Qual a importância da Conferência Caio Prado Júnior, realizada para discutir a esquerda democrática e um projeto para o Brasil?

A Conferência certamente já acerta homenageando o pensamento de Caio Prado Júnior. Mas entendo que é tarefa de primeira ordem de todos os brasileiros preocupados com os destinos da nação debruçar-se sobre qual desenvolvimento serve ao nosso país, como enfrentar e superar o ainda enorme abismo social, como aprofundar a democracia e não restringi-la, e qual arco de forças sociais e politicas é capaz de conduzir estes processos.

O PT, considerado o maior partido da esquerda no Brasil, construiu uma ampla aliança partidária para exercer o poder e se viu envolvido em denúncias de corrupção e escândalos. Estes fatos podem trazer alguma consequência para os partidos de esquerda hoje e no futuro?

Amplitude em alianças partidárias são indispensáveis nos processos políticos, mas cumprem seu papel se baseadas em plataformas programáticas e participação em instâncias de decisão frentistas.

Aqueles que se envolveram em casos de corrupção arcam com o ônus das responsabilizações, das investigações, punições e, é claro, na imagem e desempenho eleitoral.

Apesar das tentativas de generalização que nadam ajudam a democracia, de que todos os partidos e políticos são iguais, o tempo e a história vão demonstrando as diferenças.

As políticas assistenciais do governo Lula, que tem o Bolsa-Família como carro-chefe, são eficazes no combate à pobreza e à miséria? Essas medidas podem ser consideradas políticas de esquerda? Por que?

As políticas compensatórias são importantes nas condições do Brasil, em que persiste profunda desigualdade social. Mas não podem se dar em detrimento de políticas públicas de caráter universal e estrutural - saúde e educação públicas de qualidade, entre outras -, nem muito menos da garantia de desenvolvimento nacional, que gere emprego e renda dignas a todos os brasileiros. Estes são os maiores desafios que a esquerda tem que responder.

A reforma política que se discute no Congresso propõe mudanças pontuais, como maior rigor na fidelidade partidária, introdução de listas partidárias fechadas nas eleições, financiamento público de campanha, cláusula de barreira etc., além de colocar em debate temas como o voto distrital e o parlamentarismo. Qual a sua opinião sobre a reforma?

O que o Brasil necessita é de mais democracia e mais pluralismo, de ampliação da participação popular em mecanismos de decisão como referendos, plebiscitos e ações populares, de maior presença da mulher na política, de fortalecimento dos partidos e acesso aos meios de comunicação.

Estes seriam os verdadeiros objetivos de uma Reforma Política democrática. Mas o que se ensaia no Congresso é uma reforma pontual, sob encomenda dos ditos grandes partidos, que querem preservar seus espaços e seus interesses próprios.

Só assim se pode compreender a obsessão pelo retorno da cláusula de barreira, já declarada insconstitucional pelo STF, ou mesmo da adoção do voto distrital.

Após 8 anos desta gestão, o que restará para o esporte nacional com as realizações da dobradinha PC do B / PT no Ministério do Esporte? Onde o país avançou? Onde retrocedemos? O que poderia ter sido diferente?

Só é possível avaliar realmente os quatro anos da primeira gestão do governo Lula e do seu Ministério de Esporte. E acho que foram bastante positivos, inclusive no esporte.

As principais realizações foram a implantação do Programa Segundo Tempo, que eu espero que se consolide e amplie; a aprovação de leis importantes como Estatuto do Torcedor, Bolsa-Atleta e Incentivo Fiscal para o Esporte, que precisam ser regulamentadas e fiscalizadas; e as duas Conferências Nacionais do Esporte que avançaram no debate, na integração e na definição de políticas públicas para o setor.

Negócios em família: Lula não sabia de nada?

Frei Chico - O Lula quer que você vá lá ouvir uma coisa.

Vavá - Hein?

Frei Chico - Vai conversar com ele à noite.

Vavá - Ahã.

Frei Chico - Tá? Ele quer conversar na casa dele, tranqüilo, tá? Então vamos pensar um dia aí.

Vavá - Tá. mas eu vou de tarde e vou voltar. Não vou ficar lá não.

Frei Chico - Eu quero saber, Vavá, porque tem umas broncas lá que você anda apresentando uma pessoa lá no ministério.

Vavá - Eu?

Frei Chico - Vavá, depois nós conversa, tá?


O diálogo entre os irmãos de Lula era a prova que faltava para complicar a vida do presidente.

Vavá, o irmão mais velho, está sendo investigado pela Polícia Federal no caso da máfia dos caça-níqueis. Ele recebeu uma advertência de outro irmão do presidente, conhecido como Frei Chico, sobre suas atividades junto a um ministério, onde teria apresentado uma pessoa.

Um dos telefonemas para Genival Inácio da Silva gravados pela Polícia Federal durante a Operação Xeque-Mate partiu da casa de Frei Chico. Nos relatórios da PF, a pessoa que faz a ligação é identificada como "Roberto". Mas o número do telefone é o da casa de José Ferreira da Silva, o Frei Chico.

Frei Chico mora em um apartamento de um conjunto habitacional em São Caetano do Sul, no Grande ABC, em São Paulo. O telefone está em nome da mulher dele. Inicialmente relutou em reconhecer, mas no fim da noite o irmão de Lula admtiu que a voz das gravações é mesmo dele.

Ele confirmou ainda que conversou com o irmão no dia 20 de maio, sobre uma possivel viagem dele (Vavá) a Brasilia:

"O Vavá disse qualquer coisa que estava indo a Brasília. Eu falei pra ele: 'Não vá, Vavá... porque você sabe que não tem como, o Lula desde o começo não deixou nenhum parente se meter'. O Vavá falou: 'Não, mas é um amigo meu', naquele jeito dele. 'É um amigo meu e tal'. Eu falei: 'Não vai'. Aí, depois, não sei que outras conversas eu tive a mais. Não sei", afirmou Frei Chico. Veja.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Uma "parada" para pensar...

A "diversidade", que sempre foi a principal marca da Parada do Orgulho Gay e o seu maior atrativo, será também a causadora de mudanças drásticas para o próximo ano.

A festa cresceu tanto como fonte geradora de receita que joga para segundo plano a essência da maior manifestação popular em defesa das liberdades (de ação, pensamento, expressão, consciência etc.) e contra todas as formas de preconceito (de gênero, orientação sexual, raça, credo) e discriminação (racismo, machismo, homofobia).

A Parada virou só mais um negócio a ser explorado política e economicamente. Um grande negócio, onde os números e cifras se sobrepõem às pessoas e às suas causas. Puro show business.

Infelizmente, junto com o recorde de público vieram outros recordes: de ocorrências de roubos e furtos, cenas de violência, agressões, empurra-empurra e todo o tipo de excessos. A Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), organizadora do evento, já pensa em restringir o acesso de público para 2008.

É inegável que o crescimento da Parada gerou visibilidade para as questões do movimento de gays e lésbicas, mas acabou despertando o lado hipócrita da sociedade brasileira, que tolera o evento porque "movimenta a economia da cidade".

Ou seja, o foco principal deixou de ser o combate ao preconceito e à homofobia, bem como a definição de políticas públicas, passando a ser o quanto gera de recursos para o turismo paulistano e para o segmento de hotéis, restaurantes e o comércio em geral.

Se fosse assim, o tráfico de drogas, a exploração dos jogos de azar, o contrabando e a pirataria, o tráfico de órgãos etc. são todas práticas com enorme potencial para movimentar a economia. Onde iríamos parar?

O PPS discorda dessa visão distorcida. A importância da Parada continua a ser a manifestação pela liberdade e pela igualdade. A economia é mero detalhe. O acessório não pode se sobrepor ao essencial, sob o risco de perder a razão da sua existência.

Há algo de podre no reino de Lula

A pimeira impressão era de que as investigações envolvendo um dos irmãos de Lula, Genival Inácio da Silva, o Vavá, e outro de seus compadres, Dario Morelli, serviriam para reforçar a imagem do presidente e seu suposto "espírito republicano".

Ou seja, Lula mostraria à opinião pública que as investigações da Polícia Federal não têm nada de política, são imparciais e que a sua administração não poupa ninguém na apuração de possíveis irregularidades, cortando na própria carne quando preciso.

O marketing de Lula, o Grande, porém, está indo por água abaixo.

O tráfico de influência e a exploração de prestígio praticados por Vavá estão gravados em uma série de telefonemas. Difícil saber até que ponto ele ajudou efetivamente a máfia dos caça-níqueis e se fazia mesmo parte da quadrilha, mas parece cada vez mais evidente que Lula e o entorno do Palácio tinham conhecimento das atuações marginais do irmão e do compadre.

Aliás, não é de hoje que o crime e a corrupção batem à porta de Lula. O compadre Dario Morelli é uma versão atualizada de Freud Godoy, outro que se viu metido em escândalos e tinha uma função obscura nos bastidores do poder, confundindo a relação pessoal, familiar e profissional com a família Inácio da Silva.

Delúbio Soares, Silvio Pereira, Paulo Okamotto, Jorge Lorenzetti, Oswaldo Bargas, José Dirceu, José Genoino, Luiz Gushiken, Antonio Palocci... Todos, muito além de "companheiros", eram amigos íntimos do presidente Lula.

Isso para não falar de outro caso nebuloso, o do filho Lulinha com a Telemar na sociedade da empresa Gamecorp.

Até quando Lula vai manter a postura de marido traído (ou amigo traído, compadre traído, irmão traído...) e ser o último a saber?

Agora, a lista foi coroada com o irmão Vavá e o compadre Dario Morelli, atingidos pela Operação Xeque-Mate.

Nesse jogo de xadrez (afinal, será que esse povo vai mesmo parar no "xadrez"?), os peões já foram todos derrubados. Até quando o Rei vai ficar em pé?

Operação Mãos Limpas


Nunca antes neste país se viu operações da PF como essas...

Artigo: Um lixo de reforma

FERNANDO RODRIGUES *

Quem diria, a divisão interna do PT pode nos salvar. Os petistas fazem hoje uma reunião sobre reforma política. Se não houver consenso - o que parece possível -, o assunto fica encerrado nesta legislatura. Eis aí uma contribuição positiva dessa sigla ao país.

A reforma política proposta só piora algo já muito ruim. Seu ponto central são as listas pré-ordenadas de candidatos. Os eleitores passam a votar numa relação fixa de nomes.

Os primeiros são eleitos. Criam-se as oligarquias vitalícias. Os defensores das listas rebatem.

A ordem dos candidatos seria decidida em convenções partidárias. Patacoada legítima. Não há risco de as atuais agremiações políticas promoverem reuniões democráticas entre seus filiados.

Mas os pró-lista insistem: se não dermos poder aos partidos, como teremos estímulo à vida partidária?

Simples. Basta editar medidas mais comedidas e eficazes.

Uma possibilidade é votar a proposta de emenda constitucional que institui a cláusula de desempenho eleitoral para os partidos. Só quem atingir 5% dos votos poderá ter amplo acesso à TV, rádio e dinheiro público. Os outros ficam com dois minutos por semestre.

É ilógico partidos de aluguel ou nanicos ideológicos terem tanto dinheiro público e tempo de TV como se fossem gigantes.

Não se trata de acabar com os pequenos nem de exaltar o caráter (sofrível) das grandes siglas. Ocorre que a mixórdia de nanicos impede, aí sim, o aparecimento de agremiações de fato nacionais e aptas a incorporar mais ativistas. A cláusula de desempenho é uma saída. Não prospera pois não interessa ao Planalto se indispor com essa escória de 300 congressistas sempre pronta a colaborar no Legislativo.

Reforma política boa é reforma simples. A discussão no Congresso vai em outra direção. O seu fracasso será a melhor notícia em meses.


* Fernando Rodrigues, jornalista, desde 1987 na Folha de S. Paulo, foi repórter, editor de Economia, correspondente em Nova York (1988), Tóquio (1990) e Washington (1990-91). Na Sucursal de Brasília da Folha desde 1996, assina a coluna Brasília, na página 2 do jornal, às segundas, quartas e sábados.

domingo, 10 de junho de 2007

Artigo: O Golpe do Comissariado

ELIO GASPARI *
A nomenklatura do PT quer que a patuléia pague as campanhas sem direito a escolher os candidatos

Nesta semana, possivelmente amanhã, o comissariado do Partido dos Trabalhadores poderá fechar questão na defesa da instauração do voto de lista para as eleições de deputados. Estará dado um poderoso passo para a cassação do direito dos cidadãos escolherem seus representantes na Câmara.

Aos trancos e barrancos, esse direito está aí desde o século 19. A nomenklatura do PT, assim como as do PSDB e do DEM, querem impor um sistema pelo qual os eleitores ficarão obrigados a votar nos partidos, elegendo maganos colocados numa lista de acordo com as preferencias dos donatários das siglas. É um sistema que se parece mais com as ordenações manuelinas do século 16 do que com a tradição do sistema eleitoral brasileiro.

Hoje o eleitor escolhe um candidato e seu voto vai para o grande panelão da sigla pela qual ele concorre. O total de votos obtidos pelo partido num Estado é dividido por um quociente que relaciona o tamanho do eleitorado com o número de vagas em disputa. São empossados os candidatos que tiveram maior votação. Nesse sistema vota-se num, mas freqüentemente ajuda-se a eleger outro. No Rio, os 51 mil votos dados ao tucano Márcio Fortes, ex-presidente do BNDES, socorreram o pecúlio de Silvio Lopes, o ex-prefeito de Macaé que teve a colaboração de 14 parentes na administração da cidade.

Não haverá mais o voto no candidato. Nem em Fortes, nem em Lopes. Se o PT paulista puser o Professor Luizinho (59 mil votos em 2006) na frente de Arlindo Chinaglia (170 mil votos), Luizinho terá precedência.

A pergunta é obvia: quem faz a lista e quem a ordena? Os partidos, com suas obras e suas pompas. Um bom exemplo de democracia partidária está na forma como o PT tratou o assunto. Uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo mostrou que 63% da militância do partido defende a manutenção do atual sistema eleitoral.

A bancada de 83 deputados discutiu a proposta e dividiu-se, com leve vantagem para a lista. O comissário José Dirceu assombrou-se: "Andam propondo que a bancada do PT seja liberada para votar a reforma política, ou seja, cada deputado ou deputada vota segundo sua convicção. Quer dizer, estão propondo o fim do PT. É demais!" (Dirceu retificou essa afirmação ao perceber que, com o fechamento da questão, as convicções irão às favas e seu PT sobreviverá.)

O comissariado petista convocou duas reuniões da Comissão Executiva. Uma para amanhã, outra para quinta-feira. Como seus 21 membros querem o voto de lista, a bancada e um pedaço da militância poderão ser atropeladas. Isso no PT que é relativamente democrático. Nele os defensores das listas expõem-se à contradita. No PSDB e no DEM, há grão duques cabalando o golpe eleitoral sem botar o rosto na vitrine.

Arma-se a hegemonia das máquinas partidárias. Salve José Dirceu e José Genoino, ex-reis do PT. Alô Eduardo Azeredo, ex-príncipe do PSDB. Viva Roberto Jefferson, imperador do PTB. Avoé Valdemar Costa Neto, sultão do PL. Alvíssaras, Pedro Corrêa, ex-faraó do PP.

O golpe eleitoral tem tudo para ser aprovado pelos parlamentares de um Congresso bafejado por hábitos de apropriações desmoralizantes. Não custa lembrar as palavras de Renan Calheiros na última posse de Lula: "Quem morreu não foi a democracia, não foi a ética, quem apodreceu foi o nosso sistema político uninominal". A menos que "sistema político uninominal" seja um codinome da "gestante", o doutor Calheiros quer adaptar as regras do jogo às conveniências de sua parentela.

O cambalacho ilumina os deputados porque uma gambiarra determinará que as listas partidárias da eleição de 2010 sejam encabeçadas pelos parlamentares eleitos em 2006. Em poucas palavras: A prorrogação do mandato para cerca de 80% da Câmara.

Tungada no direito de escolher seus candidatos, a patuléia será convidada a pagar a conta. Criando-se o financiamento público das campanhas, os contribuintes pagarão R$ 7 por eleitor alistado.

Argumenta-se que se a choldra pagar, acabarão as caixas paralelas.

Parolagem. As caixas da malandragem só acabarão quando seus beneficiários tiverem medo de ir para cadeia. Sem grades, sempre que houver alguém querendo dar dinheiro a candidato, haverá algum mensaleiro mordendo o mercado. O financiamento público das campanhas eleitorais brasileiras será mais um caso de taxação das vítimas.

Estima-se que, com os mimos da reforma, o PRB poderá ficar com R$ 8 milhões. Pouca gente sabe, mas PRB é o Partido Republicano Brasileiro, que elegeu um só deputado. O MDB, com 93 cadeiras, embolsará R$ 136 milhões. Isso sem contar o prestígio acumulado em diretorias da Petrobras, da Caixa Econômica e do Banco do Brasil.

Depois de tanta notícia ruim, uma boa. Há duas boas vozes petistas contra o voto de lista. São o deputado Carlos Zarattini e o senador Eduardo Suplicy. Zarattini foi o quinto mais votado na bancada do PT de São Paulo. Poderia ser um crítico silencioso da maracutaia, pois se ela for consumada, seu mandato será prorrogado.

Há poucas semanas ele foi à tribuna da Câmara e advertiu:

"Em vez de realizarmos campanhas nas ruas discutindo e debatendo com o eleitor, levando-lhe nossas propostas, ouvindo o que ele tem a dizer -o que é, inclusive, muito importante para reciclarmos nossos pontos de vista-, vamos levar essa disputa da formação da lista para dentro dos partidos. E salve-se quem puder, porque, lá dentro, a briga vai se dar em outros termos".

Quais termos? Perguntaria Delúbio Soares.


* Elio Gaspari é jornalista. Em 1984, ganhou uma bolsa de três meses do Wilson Center for International Scholars. Sua intenção era escrever um ensaio cujo título já estava definido: Geisel e Golbery, o Sacerdote e o Feiticeiro. Em cerca de cem páginas, pretendia explicar por que entre 1974 e 1979 o ex-presidente e o chefe do seu Gabinete Civil desmontaram a ditadura militar, quando na década anterior, entre 1964 e 1967, haviam ajudado a construí-la. Dezoito anos depois, o que era um ensaio se transformou em cinco livros. Começou sua carreira jornalística no Semanário Novos Rumos, foi assistente do colunista Ibrahim Sued. Trabalhou no Diário de São Paulo, na revista Veja e no Jornal do Brasil. Sua coluna é hoje publicada na Folha de São Paulo, no O Globo, no Zero Hora e em mais outros dez jornais.

A Mega-Sena acumulou de novo!

Desta vez foi o concurso 874, sorteado neste sábado, pela Caixa Econômica Federal, em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. Os números foram 10, 20, 42, 44, 52 e 59.

É o 5º sorteio acumulado seguido. O último prêmio (sorteio nº 869) saiu em 23 de maio, para um único cartão. Dos últimos 12 sorteios (do 863 ao 874), este foi o único premiado.

Uma média de um prêmio a cada seis concursos desafia qualquer probabilidade matemática. Haja pé-frio dos apostadores (e pé-quente do ganhador da bolada acumulada).

Há quem acredite em coincidências, há quem veja indícios de armação. Teorias conspiratórias à parte, há algo estranho no ar. Reveja.

sábado, 9 de junho de 2007

Só pra ver como funciona...

Um desserviço em termos de imagem. Um péssimo exemplo à população. Um escorregão de assessores e de seus assessorados.

Em visita à região conhecida como cracolândia, em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) acendeu um isqueiro junto a um cachimbo de crack apreendido por policiais.

Eles explicavam ações de combate às drogas, parte de programa de revitalização da região, e mostraram o objeto a Kassab.

O prefeito, segundo sua assessoria, simulou o acendimento do cachimbo para entender "como funciona". Na seqüência, Kassab o devolveu ao policial.

Há um mês, o governador José Serra (PSDB) empunhou um fuzil belga ao participar de homenagem ao 3º Batalhão do Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE), na Vila Maria, zona norte de São Paulo.

Segundo sua assessoria, era para ver como funcionava.

Cá entre nós, fico pensando o dia em que a dupla visitar uma indústria farmacêutica e passar pela seção de supositórios...

A polêmica da cartilha sobre o uso de drogas

"É um panfleto ilegal. É evidente que a prefeitura jamais autorizaria o seu logotipo em um panfleto como esse."

Depois de posar para os fotógrafos como se estivesse acendendo um cachimbo de crack, soa ridícula a frase do prefeito Gilberto Kassab a respeito da polêmica cartilha da organização da Parada Gay, que orientava sobre como usar drogas.

O texto dizia: "Para cheirar, prefira um canudo individual a notas de dinheiro". O material também dava dicas sobre uso de maconha ("Faça uma piteira de papel só para você quando for rolar um baseado").

O argumento em defesa do panfleto é o de que ele auxilia pessoas que são usuárias de drogas a evitar doenças como Aids e hepatite. As críticas, obviamente, foram contra um possível incentivo ao uso de drogas ilícitas, ainda mais num material de divulgação oficial.

A cartilha estampa os selos de programas de DST/Aids do Governos do Estado e da Prefeitura, e também a logomarca do Governo Federal e do Ministério do Turismo.

Na noite de ontem, o Programa Nacional de DST e Aids, do Ministério da Saúde, e a Coordenação Estadual de DST e Aids de São Paulo, do governo estadual, enviaram comunicado defendendo a política de redução de danos.

Observam, no entanto, que "alguns dos termos utilizados no folheto são adaptações dos termos contidos nos manuais de redução de danos". Na nota, os órgãos defendem a suspensão da distribuição do material até que os termos utilizados sejam avaliados tecnicamente.

A Secretaria Estadual de Saúde informa também que pediu a suspensão da cartilha porque não autorizou a impressão de seu logo.

Em nota, a Aborda (Associação Brasileira de Redutoras e Redutores de Danos) defendeu as dicas da cartilha: "As ações de promoção de saúde devem levar em consideração a realidade, e não nossos desejos de um mundo ideal e perfeito".

Veja dois vídeos sobre a polêmica da cartilha: 1 e 2.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Gustavo Kuerten: 10 anos de Gugamania

Há exatos 10 anos, em 8 de junho de 1997, despontava no cenário esportivo internacional um jovem brasileiro praticamente anônimo: o tenista Gustavo Kuerten, que, aos 20 anos, surpreendeu o mundo ao ganhar pela primeira vez o título de Roland Garros.

A surpresa foi tamanha que, no dia seguinte, o autor deste blog, então repórter da Folha de S. Paulo, teve que publicar uma matéria auto-explicativa: Quem é Guga, o novo ídolo do Brasil?

Aprendemos que o mais novo ídolo brasileiro é catarinense de Florianópolis, nasceu em 10 de setembro de 1976, mede 1,91m de altura e pesava 76 kg. Além do tênis, gosta de surfar e de jogar futebol (torce pelo Avaí, time de Santa Catarina).

Gustavo Kuerten, o Guga, como era chamado pelos amigos e pela família (antes da gugamania tomar conta do país), começou a jogar tênis aos seis anos, incentivado pelo pai, Aldo Kuerten, morto três anos depois, de enfarte, em uma quadra de tênis.

O primeiro título em Roland Garros o colocava entre os 20 melhores tenistas do mundo. Três anos depois, no final de 2000, Guga era o número 1 do ranking, vencendo todos os grandes tenistas da época e alguns mitos, como Pete Sampras e Andre Agassi. Guga ainda ganhou o Aberto da França por mais duas vezes (2000 e 2001).

Falando em Esporte, é bom lembrar que este é o caminho mais curto e saudável para o desenvolvimento e a inclusão social da juventude. Não por acaso, o PPS vem reunindo ídolos como Magic Paula, Lars Grael, Ronaldo Giovanelli e Gustavo Borges, entre outros, para traçar suas políticas públicas. É só o começo.

´Mais de um milhão´, 3, 4, 6 milhões, ´uma multidão´

A Globo registrou o evento e informou: mais de um milhão de pessoas na Marcha para Jesus (depois passou a falar em "uma multidão"). Os sites de notícias chutavam online cerca de 3,5 milhões. A organização falou em "mais de 4 milhões". A Polícia Militar de São Paulo cravou: 3 milhões de pessoas.

Alguém é muito ruim de conta. Porque um público estimado variar em 300%, quando isso significa uma diferença de 3 milhões de pessoas, ou 1/4 da população paulistana, é um verdadeiro absurdo.

Mas, enfim, "mais de um milhão" foi o público do evento coordenado pela Igreja Renascer em Cristo, fundada pelo casal Estevam e Sonia Hernandes. Em visita recente ao Brasil, o papa Bento 16 reuniu 800 mil católicos na missa do Campo de Marte, cerimônia com o maior número de fiéis. A comparação é inevitável.

Este foi o primeiro ano em que o apóstolo Estevam e a bispa Sonia (nos auto-nomeados cargos da hierarquia da Renascer) não estiveram presentes na marcha, que está em sua 15ª edição. Eles cumprem prisão domiciliar desde 9 de janeiro (sob acusação de contrabando, conspiração e falso testemunho, após tentarem entrar nos Estados Unidos com dólares não declarados) e apareceram em telões, via satélite, vestidos com roupas da marcha.

O cálculo dos donos da Renascer para o público foi bem mais otimista: 6 milhões de pessoas. "O Brasil será o maior país evangélico do mundo, porque Deus determinou", afirmou Estevam, direto dos EUA.

Não se referiram, em nenhum momento, à prisão. Mas membros da Renascer ofereciam um abaixo-assinado aos presentes em prol dos fundadores da igreja. O texto ratificado pelas assinaturas, em inglês e português, garante que a pessoa sabe do dinheiro não-declarado pelo casal ao entrar nos EUA e do processo.

O abaixo-assinado também afirma: "Acreditamos em Sonia e Estevam Hernandes. Eles são nossos guias e líderes espirituais. Nós fomos confortados e encontramos a paz e o amor de Deus com a ajuda deles. Nós esperamos ansiosamente pela direção e ministrações deles pelos próximos anos".

O bispo e deputado estadual José Bruno (DEM-SP), que responde provisoriamente pela Renascer no Brasil, declarou que as assinaturas não serão usadas para pressionar autoridades brasileiras ou americanas. "É só demonstração de carinho aos nossos fundadores."

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM-SP) e o vice-governador do Estado, Alberto Goldman (PSDB), também passaram pela marcha.

"Como justificar uma barbaridade", por Luiz Inácio

Ato de Chávez ao fechar TV venezuelana foi "democrático", diz Lula.

Espera aí. Vou reler o jornal com mais atenção: "O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o fato de seu colega venezuelano Hugo Chávez não renovar a concessão da emissora RCTV foi tão democrático quanto teria sido a eventual renovação."

Uhum. Então, tá.

"Eu acho que não dá para ideologizar essa questão da televisão. O mesmo Estado que dá uma concessão é o Estado que pode não dar a concessão", ensina Lula. "O Chávez teria praticado uma violência se tivesse, após o fracasso do golpe [contra o venezuelano em 2002], feito a intervenção na televisão. Não fez. Esperou vencer a concessão".

Hummmmmmm. Agora está explicado. Esta vai entrar para a Cartilha da Democracia Lulista, capítulo I.

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Todos os Homens do Presidente

Vencedor de quatro Oscars, "Todos os Homens do Presidente" é um filme intrigante sobre política e corrupção. O mandatário retratado na história renunciou ao cargo logo após ser desmascarado.

Será possível traçar algum paralelo entre a realidade brasileira e o caso Watergate, escândalo da década de 70 que derrubou o presidente americano Richard Nixon, apurado pelos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post?

Lula não é Nixon, mas, um a um, os homens mais próximos do presidente vão caindo. Um artigo do jornalista Valdo Cruz, publicado hoje na Folha de S. Paulo, faz rememorar o filme (apesar de o título original ser de outra obra cinematográfica, "Ligações Perigosas").

Leia:

Ligações perigosas

Parodiando Luiz Inácio Lula da Silva, nunca neste país um presidente teve tantos amigos e parentes envolvidos ou citados em escândalos durante seu período à frente do governo.

A lista é enorme. Alguns andam esquecidos dada a avalanche de operações da Polícia Federal. Não custa relembrá-los.

Delúbio Soares, ex-tesoureiro petista, jogador de peladas ao lado de Lula e fornecedor de charutos em momentos que exigiam discrição. Foi abatido pelo mensalão.

Silvio Pereira, o ex-secretário-geral do PT, dono da planilha de partilha de cargos do governo Lula no primeiro mandato. Outro atropelado pelo mensalão.

Paulo Okamotto, amigo de longa data, pagava as contas do presidente sem que ele pedisse. Sobreviveu ao bombardeio da CPI do Fim do Mundo e submergiu.

Jorge Lorenzetti, churrasqueiro oficial de Lula. Transformou-se num aloprado depois de a PF apontá-lo como um dos responsáveis pela tentativa de compra de um dossiê contra os tucanos.

Oswaldo Bargas, amigo dos tempos de sindicalista. Outro que o próprio Lula classificou de aloprado pelo suposto envolvimento no dossiê contra Geraldo Alckmin e José Serra em 2006.

Há os petistas ilustres, íntimos de Lula, derrubados no primeiro mandato: José Dirceu, José Genoino, Luiz Gushiken, Antonio Palocci. E casos controversos, como o do filho Lulinha e a Telemar na sociedade da Gamecorp.

Agora, a lista foi coroada com Genival Inácio da Silva, o Vavá, irmão do presidente, e o compadre Dario Morelli Filho, atingidos pela Operação Xeque-Mate.

Nem todos são culpados, é bom dizer. Contra alguns não surgiram provas. Outros ainda estão sendo processados. Sintomático, contudo, que um presidente tenha tantos amigos enrolados. A priori, não pode ser condenado por isso. Mas bem que poderia selecionar melhor suas companhias.


Artigo: Socialismo do século 21

BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS *

Qual o significado desse aparente desmentido do fim da história? Qual o perfil da alternativa ao capitalismo? Que potenciais e riscos tem?


O que de mais relevante está a acontecer em nível mundial acontece à margem das teorias dominantes e até em contradição com elas.

Há 20 anos, o pensamento político conservador declarou o fim da história, a chegada da paz perpétua dominada pelo desenvolvimento "normal" do capitalismo -em liberdade e para benefício de todos-, finalmente liberto da concorrência do socialismo, lançado este irremediavelmente no lixo da história.

À revelia de todas essas previsões, houve, neste período, mais guerra que paz, as desigualdades sociais se agravaram, a fome, as pandemias e a violência se intensificaram, a China "se desenvolveu" sem liberdade e mediante violações massivas dos direitos humanos e, finalmente, o socialismo voltou à agenda política de alguns países.

Concentro-me neste último, pois constitui um desafio tanto ao pensamento político conservador como ao pensamento político progressista. A ausência de alternativa ao capitalismo foi tão interiorizada por um quanto pelo outro. Daí que, no campo progressista, tenham dominado "terceiras vias", buscando achar no capitalismo a solução dos problemas que o socialismo não soubera resolver.

Em 2005, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou na agenda política o objetivo de construir o "socialismo do século 21". Desde então, dois outros governantes -tal como Chávez, democraticamente eleitos-, Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador), tomaram a mesma opção.

Qual o significado desse aparente desmentido do fim da história? Qual o perfil da alternativa proposta ao capitalismo? Que potencialidades e riscos ela contém?

O socialismo reemerge porque o capitalismo neoliberal não só não cumpriu suas promessas como tentou disfarçar o fato com arrogância militar e cultural; porque sua voracidade por recursos naturais o envolveu em guerras injustas e acabou por dar poder a alguns países que os detêm; porque Cuba -seja qual for a opinião a respeito do seu regime- continua a ser exemplo de solidariedade internacional e de dignidade na resistência contra a superpotência; porque, desde 2001, o Fórum Social Mundial tem vindo a apontar para futuros pós-capitalistas, ainda que sem os definir; porque nesse processo ganharam força e visibilidade movimentos sociais cujas lutas pela terra, pela água, pela soberania alimentar, pelo fim da dívida externa e das discriminações raciais e sexuais, pela identidade cultural e por uma sociedade justa e ecologicamente equilibrada parecem estar votadas ao fracasso no marco do capitalismo neoliberal.

O socialismo do século 21, como o próprio nome indica, define-se, por enquanto, melhor pelo que não é do que pelo que é: não quer ser igual ao socialismo do séc. 20, cujos erros e fracassos não quer repetir.

Não basta, porém, afirmar tal intenção. É preciso realizar um debate profundo sobre os erros e fracassos para que seja credível a vontade de evitá-los. Se tal desidentificação em relação ao socialismo do séc. 20 for levada a cabo, alguns dos seguintes traços da alternativa deverão emergir.

Um regime pacífico e democrático assente na complementaridade entre democracia representativa e democracia participativa; legitimidade da diversidade de opiniões, não havendo lugar para a figura sinistra do "inimigo do povo"; modo de produção menos assente na propriedade estatal dos meios de produção que na associação de produtores; regime misto de propriedade em que coexistem propriedade privada, estatal e coletiva (cooperativa); concorrência por um período prolongado entre a economia do egoísmo e a economia do altruísmo, digamos, entre Microsoft Windows e Linux; sistema que saiba competir com o capitalismo na geração de riqueza e lhe seja superior no respeito à natureza e na justiça distributiva; nova forma de Estado experimental, mais descentralizada e transparente, de modo a facilitar o controle público do Estado e a criação de espaços públicos não estatais; reconhecimento da interculturalidade e da plurinacionalidade (onde for o caso); luta permanente contra a corrupção e os privilégios decorrentes da burocracia ou da lealdade partidária; promoção da educação, dos conhecimentos (científicos e outros) e do fim das discriminações sexuais, raciais e religiosas como prioridades governativas.

Será tal alternativa possível? A questão está em aberto. Nas condições do tempo presente, parece mais difícil que nunca implantar o socialismo num só país, mas, por outro lado, não se imagina que o mesmo modelo se aplique em diferentes países. Não haverá, pois, socialismo, e sim socialismos do séc. 21. Terão em comum reconhecerem-se na definição de socialismo como democracia sem fim.

* BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS, 66, sociólogo português, é professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal). Escreveu, entre outros livros, "A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política". (Publicado originalmente na Folha de S. Paulo de hoje)

quarta-feira, 6 de junho de 2007

PPS/SP mobilizado para Conferência Caio Prado Jr.

A Conferência da Esquerda Democrática "Caio Prado Júnior", encontro suprapartidário que o PPS promoverá no mês de agosto, em Brasília, pretende debater o que é ser uma esquerda moderna, suas características e o seu projeto transformador para o Brasil, em homenagem ao centenário de nascimento do historiador marxista Caio Prado Júnior (1907-1990).

Reuniões preparatórias estão sendo organizadas em todo o país. Propostas, análises, críticas e sugestões são recebidas pelo PPS e publicadas em um site específico do evento (www.ccpj.org.br).

Já estão integrados aos debates personalidades como Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Jarbas Vasconcelos (PMDB), Luiza Erundina (PSB), Cristóvam Buarque (PDT) e Fernando Gabeira (PV), entre outros.

"É uma conferência política que tem como objetivo contribuir no debate para que a esquerda brasileira tenha capacidade de definir um projeto para o Brasil, definindo-se inclusive como esquerda", explica o presidente nacional do PPS, Roberto Freire. "Essa é a crise pela qual passa o pensamento progressista em todo o mundo.”

Temas como meio ambiente, crescimento econômico, justiça social, desenvolvimento e distribuição de renda devem estar entre as prioridades dos debates.

O PPS/SP está participando ativamente dos debates, desde a primeira reunião preparatória da Conferência, realizada em fevereiro (relembre aqui), até uma série de propostas, artigos e entrevistas apresentadas no Blog e nos sites do partido.

Entre as centenas de propostas encaminhadas, o ranking do site da Conferência registra "Juventude: Cidadania, Educação e Cultura" (leia), do PPS/SP, como a "mais lida" e a "mais polêmica".

Entre as cinco mais "aplaudidas" pelos visitantes do site, três são originárias do Blog do PPS/SP: esta sobre a juventude; "S.O.S. Planeta Terra: faça já a sua parte!" (leia) e "O PPS e a neutralização do carbono" (acompanhe).

Entrevistas

O Blog do PPS/SP também está realizando uma série de entrevistas exclusivas sobre os rumos da esquerda no Brasil e a importância da Conferência Caio Prado Júnior. Veja alguns trechos abaixo:

Juca Kfouri: “Gostaria de acreditar que a Conferência Caio Prado Júnior possa ter o papel de refundar um pensamento de esquerda no país, algo que parece ter virado palavrão.” (leia mais

Rodolfo Konder: "Os partidos vivem uma crise porque não souberam compreender as mudanças, nem respeitar valores éticos essenciais, nem incorporar novos temas como o aquecimento global, por exemplo. Uma política de esquerda deve apontar caminhos para o futuro." (leia)

Luis Nassif: “Nem esquerda, nem direita conseguiram produzir uma síntese ou empunhar a bandeira do desenvolvimento com inclusão social. O espaço da esquerda está vago de idéias. Mais do que nunca é importante definir pontos programáticos nítidos.” (leia)  

Demétrio Magnoli: "Talvez seja a oportunidade de capturar as bandeiras nunca realizadas do republicanismo radical - e assim reinventar a esquerda no Brasil. Há demanda por um partido e um programa desse tipo. No fim, quem sabe o PPS venha a ser o partido que o PSDB nunca conseguiu ser?" (leia)  

Hamilton Garcia de Lima: "É preciso abrir o PPS - ou qualquer outra organização que daí se produza - para a sociedade, inventando novos métodos de organização em rede e rompendo com o modo tradicional de fazer política, centrado exclusivamente nos interesses eleitorais dos parlamentares." (leia)

Luiz Sérgio Henriques: "É possível dizer, esquematicamente, que hoje os partidos e o mundo da política aparecem descolados da sociedade, aparecem mais como agências de governo do que como representantes da sociedade. A única certeza, neste ponto, é que o fosso crescente entre política e cidadania é o caminho para o desastre." (leia)

Artigos

Outra contribuição do PPS/SP para a Conferência são os artigos publicados de personalidades como Alberto Aggio, Marco Vinício Petrelluzzi, João Batista de Andrade, Carlos Heitor Cony, entre outros.

Leia aqui também: "O que é ser de esquerda hoje?"

Entrevista: Luiz Sérgio Henriques, do site Gramsci

Luiz Sérgio Henriques é editor do site Gramsci e o Brasil, ensaísta, tradutor e um dos organizadores das obras de Antonio Gramsci em português, especialmente a nova edição das "Cartas do Cárcere".

O site editado por Luiz Sérgio divulga a obra de Gramsci, fundador do Partido Comunista da Itália e uma das maiores referências da esquerda mundial, e publica ensaios sobre a política brasileira, "com o objetivo de contribuir com a democracia no Brasil".

"O site Gramsci pode ser uma voz de equilíbrio numa conjuntura de crise como a atual. E, naturalmente, pode ajudar para que se formulem boas soluções para o conjunto da população, especialmente os setores desfavorecidos", afirma.

Veja a entrevista de Luiz Sérgio Henriques ao Blog do PPS/SP:

Na sua opinião, o que é ser de esquerda hoje no Brasil?

Ser de esquerda significa, antes de mais nada, ter uma sólida e inabalável referência democrática e constitucional, despida de toda e qualquer ambigüidade, e ao mesmo tempo operar para que, no quadro da democracia política, resolva-se a prolongada “crise do desenvolvimento nacional” que nos atinge há quase uma geração.

Isso é muito tempo, destrói esperanças, sacrifica as novas gerações, lança a sociedade num selvagem jogo de soma zero. Transformou-nos, por exemplo, num país de emigrantes pela primeira vez na história, contrariando nossa vocação “americana” e atingindo duramente nossa auto-imagem coletiva.

Acredito que, se conseguíssemos reunir consistentemente, ao longo de várias décadas, democracia política e desenvolvimento, teríamos um potente ciclo virtuoso, possibilitando atacar pela raiz, desde agora, com a radicalidade requerida, a inadmissível desigualdade social que envenena nossa vida cotidiana, especialmente nos grandes centros, mas já não só neles. Tal ciclo virtuoso tornaria o Brasil um país muito interessante para se viver.

Para o eleitorado, ainda existe uma diferença clara entre esquerda, centro e direita?

Mesmo intuitivamente, o eleitor, ou um bom número deles, ainda se deixa guiar segundo estes parâmetros. O problema, aqui, é que a crise da sociedade é geral, atinge a todos, esvazia as grandes idéias, e os atores de todo o espectro passam a fazer uma política medíocre, semelhante à navegação de cabotagem.

Além disso, pode haver uma esquerda ruim, incapaz de governo, com diagnósticos pobres, com limites culturais e políticos mais ou menos graves. Esta talvez seja uma novidade para muitos, já que, nos anos do regime militar, tendíamos maniqueisticamente a achar que a moralidade pública, a boa ação democrática etc., eram monopólio da esquerda. Uma visão muito superficial, que é até bom deixar de lado de uma vez por todas.

Por que os partidos políticos vivem hoje uma crise de identidade?

Esta crise não é só brasileira, o mal-estar generalizou-se até mesmo nas sociedades democráticas mais amadurecidas, acostumadas à presença “orgânica” de partidos de massa, de sindicatos e do associativismo dos “subalternos”.

É possível dizer, esquematicamente, que hoje os partidos e o mundo da política aparecem descolados da sociedade, aparecem mais como agências de governo do que como representantes da sociedade.

Sem perder de modo algum a capacidade de governar sociedades complexas, e sempre tomando distância de qualquer tentação dirigista, os partidos certamente devem lançar novas pontes para o mundo social, os novos sujeitos e suas demandas também novas.

Vai ser um movimento difícil, porque este mesmo mundo social, por seu turno, está fragmentado, sofre o impacto de modos de viver, de produzir, de consumir etc., ainda não inteiramente “metabolizados”; e, além disso, mostra-se atravessado por corporativismos, que, não raro, disfarçam-se até mesmo com um suposto radicalismo pré-político ou antipolítico. A única certeza, neste ponto, é que o fosso crescente entre política e cidadania é o caminho para o desastre.


Qual a importância da Conferência Caio Prado Júnior, realizada para discutir a esquerda democrática e um projeto para o Brasil?

Espero, com sinceridade, que esta Conferência contribua para a necessária revisão de programas e métodos da esquerda entre nós. Esta é uma tarefa que vai muito além de qualquer partido isoladamente. Analisar criticamente o que foi a “primeira esquerda” (basicamente, o PCB), o que tem sido a “segunda esquerda” petista, hoje no poder – tudo isso constitui um exigente programa para os anos a vir.

Um processo doloroso, sem dúvida, mas inevitável, que implica superar a perspectiva da “explosão revolucionária”, do “assalto ao poder”, implica ajustar contas com aquilo que Astrojildo Pereira, este singularíssimo intelectual, chamava de “velho e tenaz sectarismo”. E isso, afinal, para nos colocarmos à altura do nosso país, das suas tradições de cultura, das enormes potencialidades do nosso povo e da “civilização brasileira”.

O PT, considerado o maior partido da esquerda no Brasil, construiu uma ampla aliança partidária para exercer o poder e se viu envolvido em denúncias de corrupção e escândalos. Estes fatos podem trazer alguma consequência para os partidos de esquerda hoje e no futuro?

O grande escândalo, o que até hoje me deixa desconcertado, do ponto de vista da ética pública, foi a resistência do PT em participar de momentos decisivos da redemocratização: refiro-me não só à decisão de não participar do colégio eleitoral, mas muito especialmente à relação complicada com a Constituição de 1988, que este partido, como sabemos, se recusou a homologar.

Isto estimulou uma retórica, um hábito, uma “cultura” do rechaço, da recusa, da denúncia “contra tudo o que está aí”. Estimulou o “patriotismo de partido”, o salvacionismo, o messianismo “redentor”.

A meu ver, o que vimos depois de 2002 – o comportamento típico de um “partido de ocupação”, o desrespeito a instituições básicas da República, como o Congresso – estava inteiramente presente neste descaso original com a democracia. Não foi a primeira vez que a esquerda brasileira, inclusive a comunista, se comportou deste jeito. Terá sido a última?

As políticas assistenciais do governo Lula, que tem o Bolsa-Família como carro-chefe, são eficazes no combate à pobreza e à miséria? Essas medidas podem ser consideradas políticas de esquerda? Por que?

Políticas como o bolsa-família são emergenciais e até podem ter um impacto positivo em certas regiões ou bolsões mais pobres. Em princípio, ninguém pode ser contra isso, dada a dimensão da desigualdade social.

É evidente que há efeitos colaterais deletérios, como o reforço do líder carismático e da sua ligação direta com as massas de deserdados. O que de pior pode acontecer, no entanto, é que políticas desse tipo cancelem ou atenuem o grande debate sobre a crise da sociedade e dos rumos a seguir.

Sem política efetiva de crescimento, não há bolsa-família que dê conta da miséria. Mas, naturalmente, quando falamos nesse ponto, o que está em causa é um crescimento de novo tipo, fortemente qualificado tanto do ponto de vista social quanto ambiental. E que, no curso da sua efetivação, dê dignidade às pessoas e torne supérfluas as medidas paliativas.

A reforma política que se discute no Congresso propõe mudanças pontuais, como maior rigor na fidelidade partidária, introdução de listas partidárias fechadas nas eleições, financiamento público de campanha, cláusula de barreira etc., além de colocar em debate temas como o voto distrital e o parlamentarismo. Qual a sua opinião sobre a reforma?

A reforma política é um tema especialmente difícil. Além de certas medidas já consensuais (como a liquidação do indecente troca-troca de partidos, que acontece até mesmo no período entre a proclamação dos resultados e a posse dos eleitos!), convém ter bastante claro que nenhum sistema eleitoral, por si mesmo, resolve magicamente os problemas contemporâneos da democracia.

A lista fechada resolve alguns problemas e cria outros, e o mesmo pode ser dito do voto distrital ou de qualquer outro ponto de reforma.

Convém tentar combinar, sempre, governabilidade e representatividade; em nome da governabilidade, pode-se até pensar em certos mecanismos simplificadores da “complexidade”, mas o eixo deve ser a representatividade, sem a qual o sistema político se autonomiza e acaba girando no vazio.

E nada, absolutamente nada pode subsistir sem uma radical reforma do Judiciário, para que este produza respostas tempestivas aos inúmeros casos de abuso, fraude, corrupção, malversação de recursos.

Lembro que só em 2006 é que Paulo Maluf foi absolvido da acusação de ter doado alguns fuscas aos jogadores da seleção de 1970! Sem resolver o nó do Judiciário, acredito que se poderá variar mais ou menos à vontade a forma de governo, as modalidades de voto e todo o resto, mas o resultado final não será muito diferente do que temos visto e nos preocupa tanto.


Saiba mais:

Conheça o site Gramsci e o Brasil.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Konder: ´Devemos apontar caminhos para o futuro´

Rodolfo Konder, 69 anos, é jornalista, escritor, professor, tradutor e conferencista. Nascido em Natal (RN), foi criado no Rio de Janeiro e se estabeleceu em São Paulo após o AI-5.

Dirigente sindical na Petrobrás, entre 1961 e 1964, fundou o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Petro-química, em Caxias, em 1963. Foi demitido da Petrobrás e cassado, em seguida ao golpe de 1964, exilando-se no México e depois no Uruguai.

De volta ao Brasil, em 1965, tornou-se jornalista. Foi repórter de O Dia e A Notícia, redator da Agência Reuter, editor internacional de O Paiz, redator da revista Realidade, editor internacional da revista Visão.

Em 1975, ainda na Visão, foi preso no DOI-CODI; fora da prisão, denunciou publicamente as torturas então praticadas lá dentro (inclusive contra seu amigo Vladimir Herzog, assassinado pela repressão) e foi novamente para o exílio, desta vez no Canadá e, depois, nos Estados Unidos.

Foi professor de jornalismo, durante cinco anos, na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP); foi diretor das Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM) durante um ano; fez palestras e conferências no Brasil e no exterior, sempre sobre temas relacionados ao jornalismo, à liberdade de expressão e à luta pela democracia.

De volta do segundo exílio, no final de 1978, foi um dos fundadores da Anistia Internacional no Brasil, sendo eleito vice-presidente e presidente da Seção Brasileira, nos anos 80. Participou de vários Congressos, no Brasil e no exterior, cumpriu missões diplomáticas na Guatemala e nos Estados Unidos.

Trabalhou durante um ano como Coordenador de Difusão da extinta Secretaria de Comunicação do Governo Franco Montoro.

De janeiro de 1993 a dezembro de 2000, ocupou em São Paulo o cargo de Secretário Municipal de Cultura. Foi o único Secretário, na história da Secretaria, a permanecer por oito anos no cargo.

Além disso, foi conselheiro da Fundação Padre Anchieta, presidente da Comissão Municipal para as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil, e diretor da Bienal de São Paulo. É Diretor Cultural da UniFMU, diretor do MASP e conselheiro da UBE.

Acompanhe a entrevista exclusiva de Rodolfo Konder ao Blog do PPS/SP:

Na sua opinião, Konder, o que é ser de esquerda hoje no Brasil?

Ser de esquerda é defender os Direitos Humanos consagrados na Declaração Universal da ONU, defender a Democracia, a Liberdade e a igualdade de oportunidades, especialmente nos campos da educação e do trabalho. Sem nostalgias.

Para o eleitorado, ainda existe uma diferença clara entre esquerda, centro e direita?

A diferença parece cada dia mais tênue.

Por que os partidos políticos vivem hoje uma crise de identidade?

Porque não souberam compreender as mudanças, nem respeitar valores éticos essenciais, nem incorporar novos temas como o aquecimento global, por exemplo.

Qual a importância da Conferência Caio Prado Júnior, realizada para discutir a esquerda democrática e um projeto para o Brasil?

É uma iniciativa louvavél, importante, que nasce com a respeitabilidade do PPS. Talvez aponte um caminho. Talvez.

O PT, considerado o maior partido da esquerda no Brasil, construiu uma ampla aliança partidária para exercer o poder e se viu envolvido em denúncias de corrupção e escândalos. Estes fatos podem trazer alguma consequência para os partidos de esquerda hoje e no futuro?

A falência do PT, a filosofia, a corrupção, tudo terá consequência para um naufrágio mais acelerado de alguns setores da esquerda.

As políticas assistenciais do governo Lula, que tem o Bolsa-Família como carro-chefe, são eficazes no combate à pobreza e à miséria? Essas medidas podem ser consideradas políticas de esquerda? Por que?

O assistencialismo do Governo não é eficaz, nem deve ser considerado como uma política de esquerda, porque não representa soluções definitivas nem aponta caminhos para o futuro.

A reforma política que se discute no Congresso propõe mudanças pontuais, como maior rigor na fidelidade partidária, introdução de listas partidárias fechadas nas eleições, financiamento público de campanha, cláusula de barreira etc., além de colocar em debate temas como o voto distrital e o parlamentarismo. Qual a sua opinião sobre a reforma?

Sabemos todos que a reforma é necessária. As propostas em discussão são pontuais, mas significam um avanço. Um avanço insuficiente, no entanto.


Saiba mais:

Leia aqui o depoimento de Rodolfo Konder ao Museu da Pessoa.

Meio Ambiente: vida por inteiro

Hoje é o Dia Mundial do Meio Ambiente. Nunca se falou tanto do assunto como neste último ano, principalmente sobre o aquecimento global e o efeito estufa. Nem com a realização da Eco-92 no Brasil, a Ecologia e o Meio Ambiente tinham sido levados tão a sério no país.

Esperamos que ainda possa ser remediada a degradação ambiental que compromete os recursos naturais, as condições de vida e, consequentemente, o futuro no planeta.

Talvez o primeiro manifesto ecológico seja datado do ano de 1854, quando o então presidente dos Estados Unidos fez a uma tribo indígena a proposta de comprar grande parte de suas terras, oferecendo em contra-partida a concessão de uma outra "reserva". A resposta do Chefe Seattle é um dos mais belos e profundos pronunciamentos já feitos em defesa do meio ambiente.

"A terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Nenhuma folha seca cai sem que tenha consequências eternas. Há uma ligação em tudo", diz o manifesto indígena.

"O que ocorre com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo que fizer ao tecido, fará a si mesmo." (leia aqui na íntegra).

Acompanhe no site do PPS-SAMPA todas as nossas iniciativas para debater o problema do Meio Ambiente.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Gil Gomes lhes diz: bom dia, PPS!

O presidente municipal do PPS de Guarulhos, Eduardo Rocha, recebeu na sede estadual do partido, nesta segunda-feira, Daniel Gil Gomes, filho do radialista policial Gil Gomes e da dramaturga Ana Vitoria Vieira Monteiro.

Pastor evangélico há 9 anos, Gil Gomes é pré-candidato a vereador no município de Guarulhos, na Grande São Paulo.

Carregando a "marca" do pai, que em 2008 completa 50 anos de rádio, Daniel Gil Gomes tem 36 anos e é casado com a também pastora Adriana Gil Gomes.

Gil Gomes avalia o cenário político de Guarulhos e a possibilidade de filiação ao partido. Com apoio do pai (marcado pelo clássico bordão "Gil Gomes lhes diz: Bom dia"), espera poder retribuir às pessoas o amor e carinho que a família sempre recebeu.

"Penso em entrar para a política não pela ilusão de chegar ao poder, mas para desenvolver um trabalho social e comunitário para a população de Guarulhos", afirma.

Coisas da política... Assombrações que rondam SP

Toda a imprensa noticiou a filiação ao PTB do estilista Ronaldo Esper, aquele que foi preso acusado de furtar vasos em um cemitério, e a sua anunciada pretensão de ser candidato a vereador de São Paulo nas próximas eleições.

Como não poderia deixar de ser, não faltaram insinuações maldosas ao partido escolhido pelo estilista, o mesmo de figuras como Fernando Collor e Celso Pitta, entre outras personalidades renomadas das páginas políticas e policiais.

Até aí, nada demais, se a maior crítica à filiação não tivesse vindo do próprio presidente nacional do PTB, o deputado cassado Roberto Jefferson.

Pois leia a nota postada no blog de Roberto Jefferson, no dia 31/5:

Buhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!

"Tomei conhecimento pela mídia que o estilista e apresentador de televisão Ronaldo Ésper vai se filiar ao PTB. Como especialista que é, acho que vou nomeá-lo administrador de cemitério, para afugentar as almas penadas.

Buhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!! Xô, satanás!"


É sempre assim... a realidade supera a ficção.

Juca Kfouri: ´Ser de esquerda hoje parece palavrão´

Mais uma contribuição inédita do Blog do PPS/SP para a Conferência Caio Prado Júnior, painel de debates sobre a esquerda democrática, suas características e o seu projeto transformador para o Brasil, em homenagem ao centenário de nascimento do historiador marxista Caio Prado Júnior (1907-1990).

Juca Kfouri (foto), 56 anos, 36 de jornalismo, é formado em ciências sociais pela USP. Foi diretor das revistas Placar (de 1979 a 1995) e Playboy (1991 a 1994). Comentarista esportivo do SBT (de 1984 a 1987) e da Rede Globo (de 1988 a 1994).

Participou do programa Cartão Verde, da TV Cultura, entre 1995 e 2000, e apresentou o Bola na Rede, na Rede TV, entre 2000 e 2002. Voltou ao Cartão Verde em 2003, onde ficou até 2005. Atualmente está na ESPN-Brasil, onde participa do programa Linha de Passe e comanda o Juca Entrevista.

Desde 2005 é colunista da Folha de S.Paulo - onde já havia trabalhado de 1995 e 1999, quando foi para o diário Lance!. Apresentou um programa de entrevistas na CNT/Gazeta, Juca Kfouri ao Vivo, entre 1996 e 1999. Colunista de futebol de O Globo (1989 a 1991) e apresentador, desde 2000, do programa CBN Esporte Clube, na rede CBN de rádio.

É autor de "A Emoção Corinthians", "Corinthians Paixão e Glória" e "Meninos eu Vi". Juca Kfouri ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Informação Esportiva), em 1991, com a equipe da Placar; sete Prêmios Abril de Jornalismo; e dois Prêmios Comunique-se (imprensa escrita e TV) em 2004.

Acompanhe a entrevista exclusiva com Juca Kfouri:

Na sua opinião, Juca, o que é ser de esquerda hoje no Brasil?

Ser de esquerda no Brasil é permanecer na luta pela inclusão dos excluídos e não deixar de denunciar a hipocrisia da sociedade brasileira.

Para o eleitorado, ainda existe uma diferença clara entre esquerda, centro e direita?

Cada vez menos, na medida em que estrelas do petismo cometeram um crime não apenas contra suas biografias, mas, sobretudo, contra os que lutaram para derrubar a ditadura militar.

Por que os partidos políticos vivem hoje uma crise de identidade?

Porque, na verdade, quando chegam ao poder mostram que não têm identidade.

Qual a importância da Conferência Caio Prado Júnior, realizada para discutir a esquerda democrática e um projeto para o Brasil?

Gostaria de acreditar que possa ter o papel de refundar um pensamento de esquerda no país, algo que parece ter virado palavrão.

O PT, considerado o maior partido da esquerda no Brasil, construiu uma ampla aliança partidária para exercer o poder e se viu envolvido em denúncias de corrupção e escândalos. Estes fatos podem trazer alguma consequência para os partidos de esquerda hoje e no futuro?

O PT revelou-se tão conservador e medíocre, além de corrupto, que, na verdade, provou ser apenas uma corrente sindicaleira que tudo faz para ter poder e ponto final. Seus métodos lembram o que houve de pior no chamado peronismo de direita e de esquerda.

As políticas assistenciais do governo Lula, que tem o Bolsa-Família como carro-chefe, são eficazes no combate à pobreza e à miséria? Essas medidas podem ser consideradas políticas de esquerda? Por que?

Têm sido inegavelmente eficazes eleitoralmente e, neste aspecto, banca o avestruz quem não admite que significou um passo adiante em relação ao governo tucano. Mas não são políticas de esquerda, entre outras razões porque desprovidas de quaisquer aspectos educativos, ideológicos ou de conscientzação.

A reforma política que se discute no Congresso propõe mudanças pontuais, como maior rigor na fidelidade partidária, introdução de listas partidárias fechadas nas eleições, financiamento público de campanha, cláusula de barreira etc., além de colocar em debate temas como o voto distrital e o parlamentarismo. Qual a sua opinião sobre a reforma?

Em primeiro lugar, o Parlamentarismo seria um avanço em nossos usos e costumes. A fidelidade partidária é de uma tal obviedade que custa a crer que ainda a estejamos discutindo. Apóio a idéia do voto distrital, só imagino listas fechadas depois que houvesse de fato uma reforma dos partidos que nos permitisse confiar neles e gosto da idéia do financiamento público, desde que sob controle de conselhos da sociedade, como uma agência reguladora, sem nenhuma participação de governos.

Após 8 anos desta gestão, o que restará para o esporte nacional com as realizações da dobradinha PCdoB / PT no Ministério do Esporte? Onde o país avançou? Onde retrocedemos? O que poderia ter sido diferente?

Esta aliança foi um engodo. Continuamos a não ter uma política esportiva no Brasil. O Ministério virou correia de transmissão do PCdoB e não houve nenhuma ruptura com a visão elitista, coronelista e profundamente corrupta que caracteriza a superestrutura do esporte nacional.

Nassif: ´O espaço da esquerda está vago de idéias´

Luis Nassif é um dos mais renomados jornalistas e analistas econômicos do Brasil, com mais de 30 anos de profissão. Foi introdutor do jornalismo de serviços (com a seção "Seu Dinheiro", do Jornal da Tarde, no início dos anos 80) e do jornalismo eletrônico no país, com a Agência Dinheiro Vivo.

Vencedor do Prêmio de Melhor Jornalista de Economia da Imprensa Escrita do site Comunique-se em 2003 e 2005, em eleição direta da categoria. É comentarista econômico da TV Cultura, membro do Conselho do Instituto de Estudos Avançados da USP, do Conselho de Economia da FIESP e do Conselho da Escola Livre de Música Tom Jobim.

Nassif começou sua carreira como repórter do Jornal da Tarde, do Grupo Estado. Depois foi para a Folha de S. Paulo, onde trabalhou durante 18 anos e foi membro do seu Conselho Editorial.

Autor de "O Jornalismo dos anos 90" e "Menino de São Benedito", finalista do Prêmio Jabuti de 2003 na Categoria Contos/Crônica. Em 1995 lançou o CD "Roda de Choro", solando bandolim, semi-finalista do Prêmio Sharp de Música Instrumental.

Além de conceder uma entrevista exclusiva ao Blog do PPS/SP, contribuindo para a Conferência Caio Prado Júnior, que debate os rumos da esquerda democrática, Nassif sugere uma parceria com o Projeto Brasil (clique), "um site de discussão de políticas públicas que enfatizará bastante a reforma política e os pontos para uma nova etapa de desenvolvimento".

"Temos boas ferramentas de discussão que poderão permitir ao PPS uma discussão interna virtual e a publicação das conclusões, que poderão ser debatidas com outros grupos do Projeto", explica.

Acompanhe a entrevista concedida por Luis Nassif ao Blog do PPS/SP:

Na sua opinião, Nassif, o que é ser de esquerda hoje no Brasil?

É propor o desenvolvimento com governança (prestação de contas do governo) e inclusão social.

Para o eleitorado, ainda existe uma diferença clara entre esquerda, centro e direita?

A "direita" está mais identificada com o mercadismo, com ausência de Estado. A "esquerda" petista com estatização. Nenhuma das duas conseguiu produzir uma síntese nem empunhar a bandeira do desenvolvimento com inclusão social. O espaço da centro-esquerda está vago, com a descaracterização do PSDB.

Por que os partidos políticos vivem hoje uma crise de identidade?

Ficaram presos à lógica do poder, perderam a capacidade crítica e se deixaram pautar pela velha mídia.

Qual a importância da Conferência Caio Prado Júnior, realizada para discutir a esquerda democrática e um projeto para o Brasil?

O espaço está vago de idéias. Mais do que nunca é importante definir pontos programáticos nítidos.

O PT, considerado o maior partido da esquerda no Brasil, construiu uma ampla aliança partidária para exercer o poder e se viu envolvido em denúncias de corrupção e escândalos. Estes fatos podem trazer alguma consequência para os partidos de esquerda hoje e no futuro?

No ano passado criou-se um racha ideológico terrível no país. E um descrédito amplo a toda forma de organização partidária. O espaço está aberto para o crescimento de novas organizações, tipo MST.

As políticas assistenciais do governo Lula, que tem o Bolsa-Família como carro-chefe, são eficazes no combate à pobreza e à miséria? Essas medidas podem ser consideradas políticas de esquerda? Por que?

Podem pelo conteúdo social, ainda muito associado à esquerda. Mas podem ser inúteis sem desenvolvimento.

A reforma política que se discute no Congresso propõe mudanças pontuais, como maior rigor na fidelidade partidária, introdução de istas partidárias fechadas nas eleições, financiamento público de campanha, cláusula de barreira etc., além de colocar em debate temas como o voto distrital e o parlamentarismo. Qual a sua opinião sobre a reforma?

É um caminho, especialmente o voto distrital.

sábado, 2 de junho de 2007

Entre tantos partidos, por que o PPS?

PT, PMDB, PSDB, PTB, PDT, PCdoB, PSB, PTC, PSC, PMN, PRP, PPS, PV, PTdoB, PP, PSTU, PCB, PRTB, PHS, PSDC, PCO, PTN, PSL, PRB, PSOL, PR, DEM.

São 27 partidos registrados oficialmente no Brasil. No meio de tantas siglas e bandeiras, por que escolher o PPS? O que esta legenda tem de diferente das demais? O que pode motivar uma pessoa a ingressar ou a votar no PPS 23?

Clique aqui e leia: "Para entender o PPS: Um partido decente, uma opção consciente". Conheça também o perfil de Roberto Freire, presidente nacional do PPS.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Mangabeira: Aquele que foi sem nunca ter sido

Virou novela a história da posse do Professor Aloprado na Sealopra (Secretaria de Ações a Longo Prazo).

Longo prazo mesmo, por enquanto, só para a data da posse de Mangabeira Unger.

Indicado há quase dois meses para a pasta com status de Ministério, garante que toma posse no próximo dia 13, contrariando informações vazadas do Palácio do Planalto, que davam conta que Lula gostaria que ele desistisse de assumir o cargo (nada de extraordinário na vida de Mangabeira, que já havia desistido de ser crítico do presidente, de ser brizolista, de ser cirista etc.)

"Eu não recebi nenhuma orientação diferente do presidente. Não tem nenhuma informação contrária à minha posse. Já comprei a passagem aérea", diz Mangabeira, neolulista que foi sem nunca ter sido, feito uma Viúva Porcina de Harvard.

O futuro secretário (ou ex-futuro? ou futuro ex?) está movendo uma ação contra a Brasil Telecom, que tem fundos de pensão estatais como seus principais acionistas. O processo contrariou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A Folha de S. Paulo revela hoje que, numa primeira conversa com o jonal, Mangabeira negou que esteja movendo ação contra a empresa: "Não tem ação contra a Brasil Telecom".

Pouco depois, ao ser informado de que a Folha teve acesso ao processo, mudou a versão: "Eu quero retificar o que disse. Eu não queria induzir ao erro. A minha declaração correta é: eu não posso falar sobre o assunto pois estou legalmente impedido. Mas estou tranqüilo e confiante em relação à minha posse. Não vejo qualquer obstáculo".

Num terceiro telefonema, ele pediu que fosse publicada a seguinte frase: "Não há problema. Os advogados estão tratando do assunto".

Mangabeira disse que se desligou da Universidade Harvard, onde lecionava direito, e que agora prepara a viagem ao Brasil: "Estou aqui com meus filhos, que saíram do colégio interno hoje, e eles vão ficar muito bravos se eu continuar falando sobre política com você".

Mangabeira atuou como consultor e "trustee" da Brasil Telecom até 2005, quando a empresa era controlada pelo Opportunity, de Daniel Dantas. Recebeu cerca de US$ 2 milhões para gerenciar as ações judiciais da Brasil Telecom contra a Telecom Italia e os fundos de pensão.

Na época, em carta à Folha, disse que a notícia trazia informações difamatórias sobre suas atividades: "Os fundos de pensão estão no centro da corrupção na política brasileira. O governo Lula descobriu os fundos de pensão. Em vez de demolir o núcleo de corrupção ali já existente, decidiu usá-lo para ir além".

No capítulo de hoje, em carta ao Sinhozinho Lula, Porcina diz que não move uma ação contra a Brasil Telecom, mas apenas pede honorários que lhe eram devidos. Mas, nas cenas dos próximos capítulos, diz abrir mão do dinheiro em nome do cargo de ministro da Secretaria de Ações de Longo Prazo, que considera "sagrado".

O Planalto confirma que a carta chegou ao gabinete de Lula, mas não comenta seu teor. Antes da divulgação, o ministro Walfrido dos Mares Guia (Relações Institucionais) disse que Mangabeira deveria desistir da ação ou do cargo de ministro, caso houvesse empecilho legal entre as opções.

Tcham! Que novas emoções estarão reservadas para os próximos capítulos desta intrigante novela? Vale a pena ver de novo os capítulos anteriores, para não perder o desenrolar da trama:

Capítulo 1: Mangabeira Unger ser agora aliada de presidenta

Capítulo 2: Mangabeira apaga vestígios de antilulismo

Capítulo 3: E Mangabeira, enfim, falou...

Capítulo 4: Nós, os idiotas

Capítulo 5: A volta dos que não foram

Capítulo 6: O Sapo Barbudo

Capítulo 7: Governo Lula: do mensalão à navalha

Demétrio Magnoli: ´Reinventar a esquerda no Brasil´

A seguir, mais uma extraordinária contribuição para a Conferência Caio Prado Júnior, que discute os novos rumos da esquerda democrática e seus projetos para o Brasil. Demétrio Magnoli, sociólogo, jornalista e doutor em geografia humana pela USP, concedeu a seguinte entrevista exclusiva ao Blog do PPS/SP:

1) Na sua opinião, o que é ser de esquerda hoje no Brasil?

Ser de esquerda, em qualquer país, significa pender para o princípio da igualdade, quando ele entra em confronto com o princípio da liberdade.

A esquerda fundamentalista suprime a liberdade, em nome da igualdade. A esquerda democrática preza a liberdade e aprendeu que a democracia não foi inventada pela burguesia, mas pelas ondas de choque geradas pelo movimento operário no Estado liberal.

Essa esquerda continua a defender uma maior igualdade, o que geralmente implica regular o mercado. No Brasil, a regulação do mercado exige, antes de tudo, a separação entre as esferas pública e privada, o combate ao patrimonialismo, a desprivatização do Estado. Não é um programa banal.

2) Para o eleitorado, ainda existe uma diferença clara entre esquerda, centro e direita?

Cada vez menos. A identificação entre o PT e a esquerda, nos "anos heróicos" do PT, foi bastante profunda. No poder, o PT converteu-se num "partido da ordem", no pior sentido da expressão. O que ele conserva não é, essencialmente, a ordem democrática conquistada com o fim do regime militar, mas a ordem patrimonial da tradição profunda brasileira.

A confusão política produzida pela conversão do PT contamina o cenário. Ela abre caminho para um reforço das modalidades mais perigosas de conservadorismo e, simultaneamente, para o renascimento do salvacionismo político.

3) Por que os partidos políticos vivem hoje uma crise de identidade?

A crise de identidade do PT é um traço genético: o PT declarou-se socialista desde o início, proclamou sua contrariedade com o "socialismo real" e anunciou a intenção de inventar um novo socialismo. Nunca soube fazer isso e, quando chegou ao poder, reduziu seu projeto à manutenção do próprio poder - e ao usufruto de suas benesses.

O PSDB entrou em crise mais tarde, quando o segundo mandato de FHC foi engolfado e paralisado pelas crises financeiras internacionais. Nesse momento, quando seria necessário elaborar um projeto nacional, o PSDB fracassou - e se debate até hoje com as repercussões desse fracasso.

Já o PFL (o atual DEM) jamais foi verdadeiramente liberal. Nasceu como guarda-chuva de oligarquias regionais e, apesar dos esforços de Jorge Bornhausen, não conseguiu se modernizar. Ao renunciar a seu nome, desiste de uma meta nítida mas não a substitui por coisa alguma.

4) Qual a importância da Conferência Caio Prado Júnior, realizada para discutir a esquerda democrática e um projeto para o Brasil?

Penso que é a chance de ajustar as contas, em definitivo, com a tradição do stalinismo. Talvez seja a oportunidade de capturar as bandeiras nunca realizadas do republicanismo radical - e assim reinventar a esquerda no Brasil. Há demanda por um partido e um programa desse tipo. No fim, quem sabe o PPS venha a ser o partido que o PSDB nunca conseguiu ser?

5) O PT, considerado o maior partido da esquerda no Brasil, construiu uma ampla aliança partidária para exercer o poder e se viu envolvido em denúncias de corrupção e escândalos. Estes fatos podem trazer alguma consequência para os partidos de esquerda hoje e no futuro?

A trajetória do PT golpeou em profundidade a noção de mudança, que é o núcleo político da esquerda. Essa idéia não será restaurada em pouco tempo. Mas terá que ser restaurada, de um modo ou de outro.

6) As políticas assistenciais do governo Lula, que tem o Bolsa-Família como carro-chefe, são eficazes no combate à pobreza e à miséria? Essas medidas podem ser consideradas políticas de esquerda? Por que?

O vasto programa assistencialista do PT faz parte de uma política conservadora, baseada na aliança prioritária com o setor financeiro e na renúncia à luta pela universalização efetiva dos direitos.

A crítica ao assistencialismo está na ordem do dia. Pode não produzir maiorias eleitorais no curto prazo, mas é crucial para a reorganização de um pólo mudancista no país.

7) A reforma política que se discute no Congresso propõe mudanças pontuais, como maior rigor na fidelidade partidária, introdução de listas partidárias fechadas nas eleições, financiamento público de campanha, cláusula de barreira etc., além de colocar em debate temas como o voto distrital e o parlamentarismo. Qual a sua opinião sobre a reforma?

A representação, no Brasil, foi moldada de acordo com os interesses do Executivo e da elite política. Uma reforma política digna do nome teria que pensar a representação do ponto de vista dos cidadãos.

Listas partidárias fechadas é ampliar o fosso entre as elites políticas e os cidadãos. Fidelidade partidária e voto distrital reduzem esse fosso, ampliando o controle do eleitor sobre seu representante.

Poucos discutem as coligações. Mas, no sistema atual, os eleitores elegem inevitavelmente alguém em quem não votaram. Voto distrital misto e proibição absoluta de coligações em eleições parlamentares são medidas democráticas elementares. Sem elas nenhuma reforma interessará aos cidadãos.