sexta-feira, 19 de julho de 2019

O meme que virou presidente se supera no #Olhar23



O governo de Jair Bolsonaro, o meme que virou presidente, é um fabricante incontrolável de asneiras. Desde o início do ano, o #Olhar23 se propõe a fazer uma sátira política da situação. Mas a realidade supera terrivelmente a nossa capacidade de expor essa gente ao ridículo. Como é possível alguém ainda se declarar bolsonarista?

Aqui tem tudo misturado neste resumo da semana do Bolsonaro: nepotismo, filé mignon, Marcos Mion, hambúrguer, pizza, churrasco, ovo, Villa, Caetano, japonês, chinês, inglês, índio e americano. Não há limite para a insensatez, o despreparo e a falta de compostura. Não entendeu? Então assista.

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Um #ProgramaDiferente com raio gourmetizador




Vivemos tempos insanos da gourmetização de tudo: da culinária, do vocabulário, do comportamento, da vida. O #ProgramaDiferente desta semana trata deste novo mundo gourmet. A moda começou com os programas de gastronomia, que hoje dominam a programação das TVs abertas e fechadas, além de fazerem a fama de influenciadores digitais. Parece que todo mundo virou expert em cozinha. Antigamente o Brasil tinha 120 milhões de técnicos de futebol. Hoje são 200 milhões de masterchefs. Assista.

terça-feira, 16 de julho de 2019

Trocamos o humor pelo terror no #Olhar23



Apresentamos mais um episódio do #Olhar23, o nosso olhar crítico, irônico e irreverente das sandices do bolsonarismo, esse fundo de poço atingido pela política brasileira. Mas, afinal, como fazer sátira de alguma coisa que no dia a dia é mais ridícula que qualquer piada? Nada é mais absurdo que a realidade paralela da família Bolsonaro.

Hoje repercutimos a indicação de Eduardo Bolsonaro para a Embaixada dos Estados Unidos, a sua incrível experiência fritando hambúrguer, para orgulho do papai Jair Bolsonaro e do titio Donald Trump, além da nossa expectativa pela nomeação de um ministro "terrivelmente evangélico" para o STF. Ou seja, trocamos o humor pelo horror. Assista.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Guerra Ideológica Virtual: O Massacre da Esquerda Elétrica pelos Zumbis da Direita Digital

Houve um tempo em que se declarar de esquerda ou centro-esquerda era quase uma obrigação para ser bem aceito no meio político e pela sociedade em geral. Quem, afinal, teria coragem de ser contra a luta pela redemocratização, pelo voto direto, pelo fim da censura, pela justiça social e pela garantia dos direitos básicos da cidadania?

A esquerda era jovem, questionadora, eletrizante. Era pop. Era top. Quem representava a renovação política, das ideias e dos costumes era declaradamente de esquerda. Por outro lado, pouca gente assumia ser de direita depois do ranço das duas décadas de ditadura militar. Conservadores e retrógrados foram para o armário. Sobraram alguns ícones ou personagens quase folclóricos, que ocupavam um nicho entre seus admiradores, mas eram rechaçados por grande parte da mídia e pelos formadores de opinião.

O primeiro baque histórico e bastante simbólico para a velha esquerda foi com a queda do Muro de Berlim. Ainda assim, o episódio teve um papel bastante didático, transformador e elucidativo para separar aqueles que defendiam ditaduras de esquerda de outros teóricos, militantes e ativistas que pregavam a refundação do pensamento socialista ou a afirmação de uma nova esquerda democrática.

Passou o tempo, ondas progressistas vieram dar na praia como novidade e refluíram no mundo todo. Ser tachado de esquerda virou ofensa grave, muito pior que xingar a mãe. O mundo analógico se tornou digital. As verdades da revolução industrial, da urbanização, da globalização, foram desconstruídas pela revolução tecnológica e pela descrença generalizada na política institucional e no exercício da democracia representativa.

A velha direita perdeu enfim a vergonha. Saiu do armário e das latrinas onde procriou sem grandes ideias e nenhum bom senso, mas com energia acumulada para confrontar os poderosos de plantão, as conquistas democráticas e os preceitos republicanos nessa nova ágora virtual. Vivemos este exato momento caótico, com os bárbaros armados (no sentido literal e figurado) de posts, stories, memes, tweets e fake news assassinando reputações e destroçando quem ousa pensar.

Veja que não é necessário nem mesmo pensar diferente. Basta pensar. É proibido refletir, ponderar, criticar, discordar, inquirir. Só é permitido replicar as palavras de ordem da própria bolha de energúmenos. Não é à toa que as milícias da direita se enfrentam entre si, e todas elas juntas atacam o centro e a esquerda, nas redes sociais transformadas em campos de batalhas ideológicas sangrentas.

Parece um filme de terror com tom melodramático: "O Massacre da Esquerda Elétrica pelos Zumbis da Direita Digital". Tempos difíceis. Há mortos-vivos da pós-verdade por toda a parte, à esquerda e à direita, que se alimentam de cérebros, sequestram almas e petrificam corações. Aonde termina o pesadelo e começa a realidade? Como salvar a humanidade pensante à beira da extinção? Quem será que chega vivo no final?

Mauricio Huertas, jornalista, é secretário de Comunicação do #Cidadania23 em São Paulo, líder RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do #BlogCidadania23 e apresentador do #ProgramaDiferente.

domingo, 14 de julho de 2019

#ProgramaDiferente: Liberdade, Igualdade e Fraternidade; os princípios da Revolução Francesa que nunca saem de moda no Brasil e no mundo



Nos 230 anos da Queda da Bastilha, neste 14 de julho, o #ProgramaDiferente se propõe a refletir como anda no mundo o espírito da Revolução Francesa: Será que Liberdade, Igualdade e Fraternidade são princípios que ainda estão na pauta do dia da política atual?

Neste momento em que governos opressores e retrógrados despontam em diversos países, nunca é demais testar se o slogan revolucionário que se tornou um grito universal de ativistas em prol da democracia liberal e do estado de direito segue ecoando pela voz das novas gerações. Assista.

sábado, 13 de julho de 2019

Hoje é Dia de Rock no #ProgramaDiferente, bebê!

Neste 13 de julho, Dia Mundial do Rock, o #ProgramaDiferente relembra três especiais que já fazem parte da nossa história.

Assista:

No #ProgramaDiferente, "hoje é dia de rock, bebê!"

#ProgramaDiferente festeja os 70 anos de Rita Lee

O #ProgramaDiferente mostra a diversidade da música: de Supla à roda de viola e samba canção de Wilson das Neves com rap de Emicida


A data que celebra anualmente o rock foi escolhida em homenagem ao Live Aid, megaevento que aconteceu nesse dia em 1985.

Faz referência a um desejo manifestado por Phil Collins, participante do evento, que gostaria que aquele fosse considerado o "dia mundial do rock".

O evento também ficou conhecido por contar com grandes artistas do gênero, como Queen, Mick Jagger, Keith Richards, Elton John, Paul McCartney, David Bowie, U2, entre outros.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Paulo Henrique Amorim no #ProgramaDiferente



Em 2015, fizemos um #ProgramaDiferente especial com o jornalista Paulo Henrique Amorim, que atualmente estava afastado da Rede Record e morreu nesta quarta-feira, 10 de julho. Editor de um blog próprio, o polêmico Conversa Afiada, completava naquela época mais de meio século de carreira com passagens por alguns dos mais importantes órgãos de imprensa e TVs do país (Rede Globo, Revista Veja, Revista Exame, Rede Bandeirantes, Jornal do Brasil, TV Cultura, entre outros), e reuniu suas experiências no livro "O Quarto Poder - Uma Outra História".

Além da entrevista exclusiva, registramos uma palestra do jornalista na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Controverso, Amorim fez o que se esperava dele (meio jornalista, meio showman): atacou a Globo e a família Marinho, o povo de São Paulo, o PSDB, o Ministério Público, a Polícia Federal, o então Ministro da Justiça e exaltou as maravilhas que ele e seus seguidores enxergavam nos governos de Lula e DilmaAssista.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

A mediocridade do meme que virou presidente

Três artigos de hoje da Folha de S. Paulo dão bem a medida da mediocridade que impera no Governo Bolsonaro, em grande parte pela boçalidade do próprio presidente.

Leia abaixo: "Não caiu a ficha de Bolsonaro", do repórter Fábio Fabrini, e "Governante menor", do genial Ruy Castro

No post a seguir, "Nas mãos do capitão Forrest Gump!", do ex-governador paulista Márcio França (PSB).

Aqui não cansamos de expor a incapacidade e o despreparo do "mito" dos memes.

Triste Brasil e pobre do brasileiro que acredita neste ser desprezível.

Não caiu a ficha de Bolsonaro


Não à toa presidente anda com a popularidade no volume morto

Jair Bolsonaro subiu a rampa do Planalto há seis meses, mas seus gestos fazem crer que não lhe caiu a ficha do cargo que ocupa.

É o chefe do governo e do Estado, mas se comporta como um agente fora deles, a sabotar suas instituições, tal qual um ser marginal na política.

Quer que a população se arme para se defender da violência que, como mandatário, tem a missão de enfrentar com políticas de segurança.

Rebela-se contra comandos constitucionais, a exemplo da demarcação de terras indígenas e quilombolas.

Boicota o já combalido aparato de fiscalização do país ao denunciar uma indústria de multas no trânsito e na área ambiental, buscando reduzir a vigilância e anistiar infratores.

Na semana passada, exaltou a exploração de mão de obra infantil, a despeito do esforço das delegacias do trabalho para tirar crianças de carvoarias e cruzamentos.

Investe também contra a atividade de órgãos como o IBGE, cujo cálculo do desemprego chama de enganoso.

O traje de atirador se ajusta bem a um candidato antissistema, mas agora Bolsonaro é o próprio sistema e cabe a ele mostrar o que veio edificar, não só o que pretende desconstruir. O presidente não tem projeto e terceiriza suas responsabilidades.

Enquanto se mete em picuinhas como a do fim da tomada de três pinos e faz lives sobre pescaria, o Congresso conduz a reforma da Previdência à sua revelia e iniciou a tramitação da tributária. Câmara e Senado preparam uma agenda paralela à do Planalto, com foco na economia.

Intramuros, o governo é manejado por quem não tem assento no governo. Um ideólogo de teses delirantes, radicado nos EUA, dá as cartas na Educação à míngua. E os filhos do presidente indicam companheiros de balada para bancos públicos.

Não é à toa que Bolsonaro anda com a popularidade no volume morto. Já fala em 2022, mas, aos seis meses com a faixa, tem a pior avaliação de um presidente desde Collor, segundo o Datafolha. Para 61%, fez menos do que se esperava. E só 22% acham que age como lhe cabe.

Fábio Fabrini
Repórter da Folha de S. Paulo em Brasília, atua há 15 anos na investigação de casos de corrupção e malversação de recursos públicos.

Governante menor


Que sorte, a de João Gilberto! Bolsonaro não o elogiou

Leio que o presidente Jair Bolsonaro reagiu com indiferença à notícia da morte de João Gilberto.

Não decretou luto nem se deu ao respeito de emitir um comunicado lamentando a perda desse grande artista etc. —o discurso protocolar dos chefes de Estado, que pode não engrandecer o morto, mas também não apequena quem o emite.

Que sorte, a de João Gilberto! Um elogio de Bolsonaro seria uma nódoa nas homenagens que lhe estão sendo prestadas por tanta gente importante, no Brasil e no exterior.

Outras glórias da cultura já morreram este ano, como Bibi Ferreira e Beth Carvalho, e não me lembro de ter escutado uma palavra de Bolsonaro a respeito. Beth era declaradamente de esquerda, mas não me consta que, no fim, a política tomasse muito tempo de Bibi.

Bolsonaro, se fosse um estadista, e não um presidente com estofo de vereador, teria aproveitado para reverenciá-las e mostrar como um governante está acima de divergências e mesquinharias. Mas não faz isto, porque conhece bem o seu lugar. A rampa do Planalto não elevou sua estatura.

Diz-se que Bolsonaro não se pronuncia sobre certas pessoas porque não sabe quem são, nem tem quem o instrua. É possível. Seu universo de referências culturais não parece extrapolar a churrasqueira do condomínio onde morava, na Barra.

Mesmo os generais da ditadura, que ele tanto admira, eram intelectuais diante dele. Castello Branco gostava de teatro; Costa e Silva, diziam, fora craque em matemática no Colégio Militar; Geisel tinha fumaças de estadista e, por via das dúvidas, mantinha Golbery ao lado; e Figueiredo governava com os cavalos, mas seu irmão, Guilherme Figueiredo, era um escritor respeitado, inclusive pela esquerda. Já Médici, não: seu cérebro era uma extensão do radinho de pilha com que ele ia ao Maracanã.

Aliás, pela frequência com que Bolsonaro tem ido a estádios, só pode estar em campanha pela presidência da CBF.

Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.

Márcio França: Nas mãos do capitão Forrest Gump!

Presidente poderia e deveria conduzir, liderar, unir

Márcio França

No filme de 1994, pelo qual Tom Hanks ganhou o Oscar, nos emocionamos com a boa intenção de um jovem limitado e esforçado, que fazia tudo sem se planejar para a tarefa que iria cumprir. Apenas fazia.

Ele nem sabia ao certo porque estava ali. Só sabia que tinha de ser sincero. Participou, por acaso, dos episódios importantes da história dos EUA dos últimos 40 anos. Do Vietnã ao escândalo de Watergate.

Mas foi como capitão de um barco pesqueiro de camarões, que tinha tudo para ser um fiasco, que a “sorte” lhe soprou. Uma tempestade destrói os barcos grandes, seus concorrentes. Apenas seu barquinho fica intacto. Pesca sozinho, enche-se de camarões e faz sucesso com seu negócio.

Forrest, após realizar o que nunca imaginou, decide, também sem razão, correr pelo país. Não sabe para onde, nem o porquê. Só corre.

A multidão o segue. Indagados à razão, os seguidores afirmam: “Sigo o Forrest porque me inspira”. “Sigo porque é um protesto contra os poderosos” ou “porque busco Deus e ele vai nos conduzir”. Cada um o seguia por aquilo que achava importante. Faltava alguém que inspirasse a corrida. E corresse, liderasse. A ingenuidade tosca da missão, e sua determinação sem objetivo lógico, contaminou uma multidão e ele marcou uma geração.

Alguns traços do filme têm semelhança com nossa realidade.

Mas nosso capitão simplório não quis até aqui ensinar correndo, inspirando, agregando. Insistiu em conduzir brigando e polemizando. Guerreando com muitos, inclusive os seus. Perdeu tempo com polêmicas desnecessárias.

Apostou todos os ovos em uma só cesta. Já sabíamos o que iria acontecer! E a vida segue. Cada lado continuará com seu discurso. “Não deu certo porque não conseguimos tudo”. “Não deu tão errado, porque não aprovamos tudo”.

E quem correrá para o lado que une a todos? Quem inspirará a união, o bom senso? Nem a seleção brasileira, que antes conseguia. Ele já tem o que precisa para dar o seu melhor: sua coragem, superação. Mesmo suas limitações, por vezes confusas, quase insanas, não foram seu obstáculo, na sua carreira tumultuada. Ao contrário.

Desde que ganhou a corrida, por direito e obrigação, deve conduzir a todos nós. Tanto os que o idolatram como os que não lhe são simpáticos, entre os quais me incluo, com franqueza bolsonariana.

Brasil acima de tudo, Deus acima de todos! A frase já dá pistas. Servidor do Estado, e dele dependente economicamente, não tem conceitos liberais clássicos. Defende, sem convicção, o estado frágil. Quanto ao “conservadorismo”, deriva muito mais de uma agenda de religião/costumes. Mas os sucessivos casamentos também mostram que é “adaptável”, no mínimo.

Mesmo assim, como o ingênuo Forrest, poderia e deveria olhar para frente, conduzir, liderar, unir. Tratar com generosidade as discordâncias. Dar por encerrada as eleições. Aproveite a oportunidade que o destino lhe trouxe. Quem sabe um dia, possa, feliz, sentar-se no banco de uma praça e contar a incrível e improvável história de sua vida, de brigas e intransigências, superações e vitórias, que, ao final, lhe ensinaram a mudar seu comportamento, sem mudar sua alma, e ajudar o seu país. Corra, capitão!

Márcio França
Advogado, presidente do PSB-SP e ex-governador de São Paulo (2018)

terça-feira, 9 de julho de 2019

Pavão Misterioso não é brincadeira inocente, é crime que envolve o 1º escalão do governo Bolsonaro

É preocupante como o nível do debate político tem despencado abissalmente: qualquer bobagem inventada, montagem tosca ou mentira plantada, desde que atenda aos interesses das bolhas à direita ou à esquerda, ganha repercussão imediata (travestida de verdade) nessa mistura perigosíssima à democracia que junta desinformação com má fé na ação deletéria de analfabetos políticos, analfabetos digitais e analfabetos funcionais. Um horror!

O bolsonarismo é o patamar mais baixo, sórdido e indigno desse jogo sujo que virou o dia-a-dia do embate ideológico que toma conta do cenário político. Algo precisa ser feito para estancar essa sandice. Não que seja novidade toda essa indecência na comunicação política, mas o problema ganhou proporções gigantescas com o acesso da grande massa de eleitores aos aplicativos e redes sociais, sem nenhum critério de sensatez ou filtro racional.

Então, aquilo que sempre funcionou como informação e contrainformação, com a versão oficial dos fatos muitas vezes contaminada por boatos, por erros de apuração ou pela divulgação propositalmente enviesada partidariamente, principalmente na chamada "mídia alternativa" - que nos governos do PT foi inclusive patrocinada com verbas públicas oficiais (vide o escândalo popularmente conhecido como dos "blogs sujos") -, tudo isso virou fichinha perto do que vemos hoje na fabricação diária de fake news e do assassinato de reputações.

O surgimento do tal #PavãoMisterioso, perfil fake compartilhado por milhões de bolsonaristas em resposta à divulgação a conta-gotas das conversas vazadas do ministro Sergio Moro pelo The Intercept Brasil, inventando diálogos ridículos, absurdos e fantasiosos que envolveriam o jornalista Glenn Greenwald, o deputado David Miranda (PSOL) e outros personagens da esquerda, é repugnante e desprezível.

Não basta sabermos que se trata de um perfil sabidamente fictício, montado para atacar a honra das pessoas com mentiras, leviandades e até obscenidades, o mais chocante é que essa ação criminosa seja comandada e disseminada abertamente por ministros, por parlamentares da base do presidente e pelos seus próprios filhos, que endossam cinicamente essas postagens de puro terrorismo digital.

Se na era do mimeógrafo a estratégia era repetir mil vezes uma mentira até ela se tornar verdade aparente, como ensinou Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Adolf Hitler, imagine agora na época em que os memes e os stories fazem parte da rotina diária da quase totalidade dos formadores de opinião, que passaram eles próprios (e cada um de nós) de simples receptores de notícias a produtores de conteúdo e emissores de informação. É a receita do caos!

sábado, 6 de julho de 2019

Vamos botar fogo no parquinho! (A quem interessa detonar Sergio Moro e a Operação Lava Jato?)

A política não é para amadores!

Quem não sabe brincar, não desce pro play!

Vamos raciocinar, meu povo!

O que está acontecendo no Brasil, afinal? A quem interessa detonar Sergio Moro e a Operação Lava Jato?

E depois que o Intercept Brasil vazou as conversas privadas do ex-juiz com os procuradores, entraram no jogo também a Globo, a Folha, o Estadão e a Veja? Todos os veículos que os petistas chamavam de PIG, ou Partido da Imprensa Golpista? Toda a mídia que todos os governos amam odiar?

Pode isso, Arnaldo?

Botaram até o Faustão na história! Ô loco, meu!

Daqui a pouco vão mandar para a cadeia Moro, Deltan e Faustão e soltar Lula, Cunha e Cabral.

Estranha a indignação seletiva de alguns dos nossos legalistas. Não vemos o mesmo fervor que condenam Moro por atuar “parcialmente” para prender corruptos, com ministros do STF, por exemplo, que soltam empresários e políticos ao arrepio da lei.

Mais exemplos: condenados em 2ª instância, ou o estimado Zé Dirceu, ou o impune Aécio, ou os empresários da máfia dos transportes no Rio, entre outros réus privilegiados pelo grau de amizade ou pelas contas bancárias em paraísos fiscais, soltos sempre que recorrem ao “sistema”.

Por que parte da imprensa, lideranças políticas e formadores de opinião preferem condenar, nesse caso, o ex-juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol? Porque, dizem por aí, podemos também ser vítimas dos excessos da lei... Será?

O sistema jurídico que libera até saidinha do Dia das Mães para Suzane Richtofen não mobiliza nem causa tanta indignação quanto a suposta injustiça de termos um bando de políticos corruptos presos pela atuação tachada de “ilegal” de um juiz. Aliás, numa crítica bastante subjetiva. Pois há quem não veja ilegalidade (a não ser no vazamento de conversas privadas).

E assim caminha o nosso Brasil...

Mas é inusitado todo esse estardalhaço e a repercussão mundial com os diálogos vazados do Moro com os procuradores. Uns vêem crime. Outros, o cachorro correndo atrás do rabo: Moro orientava ações da Lava Jato. Que novidade, hein?

A questão é que Sergio Moro e Deltan Dallagnol sempre se posicionaram publicamente como protagonistas da Lava Jato. E o próprio Moro nunca se apresentou como imparcial. Construiu a imagem como caçador de corruptos. Ninguém nunca viu suas palestras, entrevistas, artigos, reportagens e livros sobre ele? Só agora isso espanta?

Legal ou ilegal (e há controvérsias, senão o caso já estaria liquidado), o juiz Sergio Moro sempre atuou parcialmente na Operação Lava Jato. Basta ver todas as suas falas públicas. Isso era visto com normalidade (menos pela defesa dos condenados). O que mudou com a #VazaJato? Estranho...

A partir dos diálogos vazados (e da posse de Moro como ministro) mudaram as análises sobre o posicionamento do então juiz. Bizarro. Ou estavam todos dormindo ou mudou a interpretação dos fatos. Afinal, existe posição definitiva sobre eventuais ilegalidades? Prosseguem as divergências.

Quem acompanha desde o início a Lava Jato sabia que havia uma ação coordenada dos agentes públicos e instituições do Estado e da Justiça contra a corrupção. Isso é ilegal? Fere o Estado de Direito? Como se enfrenta o crime organizado?

Em uma Operação desse porte contra todo um sistema mafioso, era novidade que o juiz agiria com parcialidade? Esperava-se imparcialidade ou o enfrentamento desse sistema, que busca brechas legais e todo tipo de manobras lícitas e ilícitas para brecar as investigações?

Na Lava Jato devemos exigir “normalidade” jurídica como se o réu fosse um ladrão de galinha? Somos ingênuos ou hipócritas? Algum inocente foi condenado? Houve favorecimento de algum réu? Provas adulteradas? Testemunhas ameaçadas? Ou a ação coordenada ficou no limite da legalidade?

Como combater a máfia encastelada no poder? Ou alguém acredita que havia outra forma (no caso, uma ação descoordenada) para enfrentar o crime organizado? Aliás, a Lava Jato, a partir da força-tarefa, não foi exatamente a soma de esforços dos agentes públicos para punir os corruptos?

O então juiz Sergio Moro puniu inocentes ou agiu de forma coordenada, nos limites da legalidade, com a força-tarefa do Ministério Público, da Receita e da Polícia Federal? Os condenados tiveram suas defesas cerceadas? Direitos foram violados? Não havia provas contra eles ou os processos foram adulterados? Foi feita justiça ou se cometeu alguma injustiça?

E, finalmente, façam o favor de não confundir o nosso apoio à Lava Jato ou o repúdio à execração do Moro e do Deltan com uma suposta adesão ao bolsonarismo. Longe disso! Xô, Bolsonaro! Me inclua fora dessa! Aliás, o maior erro do Moro foi justamente entrar para esse governo de retrógrados e lunáticos.

Dito isso, data venia, que todos os corruptos sejam punidos! Do PT, do MDB, do PSDB, do PSL, da PQP!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Um ou dois terços pelo Brasil: Oremos pela salvação!

O presidente que um terço do Brasil elegeu - num país dividido e polarizado - é um completo alienado, imprudente, desajuizado, inconsequente, despreparado, insano, destrambelhado, insensato, destemperado, transtornado, indecoroso, inapto e inepto. A mais recente ignomínia (perdão pelo termo difícil, mas é o adequado) foi defender o trabalho infantil.

Usou o próprio exemplo para garantir que "não foi prejudicado em nada" por ter trabalhado colhendo milho aos "nove, dez anos de idade" em uma fazenda de São Paulo. Porém, fica a dúvida: será que não foi prejudicado em nada mesmo? Ao juízo de quem? Esses traços tão característicos da personalidade e do caráter bolsonarista seriam os mesmos hoje se ele tivesse sido devidamente tratado como criança? Não seria um pai diferente? Não seria um homem melhor?

Talvez não precisasse fazer arminha com os dedos para se autoafirmar, nem enxergasse inimigos imaginários em todo canto, nem agisse como neurótico de uma interminável guerra ideológica, nem fosse criticado por condenáveis comportamentos autoritários, violentos, machistas, racistas, homofóbicos, misóginos, nem acabasse tutelado por auxiliares débeis ou gurus charlatães.

Eu não votei nele, mas respeito a escolha democrática de um terço da população (e explico abaixo esse "um terço", antes que me acusem de fake news por não reconhecer o voto da maioria absoluta dos eleitores). Respeitem, portanto, o meu direito de fazer oposição. Tenho de aturar a escolha resultante da maioria dos votos válidos, ou de um terço dos brasileiros. Aturem também a minha indignação com este aparvalhado retrógrado e sua turminha mentecapta.

Somos 210 milhões de brasileiros, segundo os dados oficiais. Destes, 147,3 milhões estávamos habilitados a votar para presidente em 2018. Os que escolheram Jair Bolsonaro no 1º turno somaram pouco mais de 49,2 milhões (46,03% dos votos válidos, ou 33,4% do total de eleitores, ou ainda cerca de 23% da população). Então, um terço dos votos foram para o candidato do PSL.

Outros 57,7 milhões de eleitores optamos por algum dos demais candidatos. Eram 12 (sendo Fernando Haddad, Ciro Gomes, Geraldo Alckmin e João Amoedo os mais votados). Sem contar os 3,1 milhões de votos em branco e os 7,2 milhões de nulos. E tivemos ainda um índice recorde de abstenções: 29,9 milhões de pessoas, ou 20,3% do eleitorado. No 1º turno, dois terços dos eleitores não votamos neste presidente.

No 2º turno, Bolsonaro teve 57,7 milhões de votos (55,13% dos votos válidos, ou 39,2% dos eleitores, ou ainda cerca de 27,5% da população). Outros 47 milhões optaram por votar em Haddad. Os votos em branco caíram para 2,4 milhões e os nulos subiram para 8,6 milhões. As abstenções aumentaram em 1,4 milhão: foram 31,3 milhões de ausentes (ou 21,3% do eleitorado).

Conclusão matemática (e política) óbvia: dois terços dos brasileiros não escolheram Bolsonaro. Mais da metade do povo não votou nele nem em ninguém. É assim que funciona nosso sistema eleitoral. Não chega a ser novidade, mas às vezes é bom reforçar os números, principalmente diante dos fatos que nos assombram diariamente e dos índices das mais recentes pesquisas sobre a aceitação do governo.

Em geral, um terço da população apóia o presidente. É basicamente a repetição do resultado das eleições. Entretanto, como vivemos num estado democrático de direito, esperamos que o presidente governe também para os dois terços que - se ainda não o reprovam categoricamente (os tais "ruim/péssimo" das pesquisas), também não o aprovam abertamente (afinal, "regular" é uma avaliação positiva ou negativa após seis meses de gestão?).

Maiorias e minorias são circunstanciais. Direitos são permanentes, constantes e universais. Um terço dos brasileiros escolheram Bolsonaro. Dois terços, não. Um terço ainda o qualifica positivamente. Dois terços, não exatamente. Conclusão: o Brasil segue dividido. Eu sei qual é a minha metade, qual é o meu terço, mas o governo parece seguir à deriva.

Não pertenço ao terço bolsonarista, nem ao terço lulista. Sou oposição a ambos. Prefiro uma terceira opção. E você? Apesar de tudo, torcemos todos pelo bem geral da Nação! Mas se nada der certo, encontre o seu terço e... reze! Oremos pela salvação!

Mauricio Huertas, jornalista, é secretário de Comunicação do #Cidadania23 em São Paulo, líder RAPS (Rede de Ação Política pela Sustentabilidade), editor do #BlogCidadania23 e apresentador do #ProgramaDiferente.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Especial: #ProgramaDiferente no mundo da lua!



Há 50 anos, Neil Armstrong foi o primeiro homem a pisar a Lua, seguido por Buzz Aldrin, ambos astronautas da missão Apollo 11. O foguete Saturno V partiu da Flórida (EUA) no dia 16 de julho e o módulo lunar Eagle pousou na Lua na noite dia 20 de julho de 1969.

Este #ProgramaDiferente é especial para todos os terráqueos, lunáticos, extra-terrestres e até terraplanistas e bolsonaristas. Você acredita que o homem foi à lua? Há várias teorias da conspiração. Vamos revê-las com bom humor e a palavra da ciência. Assista.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Heróis ou vilões: você escolhe o seu lado na História!

Um ponto que não pode passar despercebido nas análises políticas que forem feitas sobre Sergio Moro: ele ainda é o "herói" para quem tem como "anti-herói" Lula. E vice-versa.

Não que precisemos de heróis, nem que existam de fato tais personagens na vida real, sobretudo no mundo político, mas eles sobrevivem imbatíveis no imaginário popular. E estão aí para enfrentar e vencer os inimigos.

Por isso, são rasas, míopes e puramente subjetivas as opiniões de quem decreta o "desMOROnamento" do ex-juiz. Ele segue forte, com seus superpoderes e habilidades inabaláveis, feito o herói de capa e máscara dos filmes e dos quadrinhos. 

Não cabem apenas explicações racionais nesses episódios marcados fortemente pela comoção popular. A razão, pura e simples, não explica fenômenos eleitorais nem o surgimento de líderes populistas e carismáticos. Para o bem e para o mal.

Aliás, é necessário que se diga, o verdadeiro "mito" da política atual é Sergio Moro, não o aparvalhado Jair Bolsonaro. O atual presidente, eleito circunstancialmente em 2018, era a arma que estava à mão para o voto anti-petista. E a facada foi o golpe crucial para o enredo heroico que se construía. Mas o clamor popular era (e ainda é) por Sergio Moro.

Os diálogos vazados da Lava Jato só reforçam esse heroísmo para a parcela anti-petista. O ruído crítico à sua suposta vilania vem do outro lado, com viés de esquerda e credibilidade duvidosa. Soam como as tradicionais onomatopeias das brigas entre heróis e vilões (Crash! Zap! Pow! Boom!). Até que os dois se levantam e partem para o próximo confronto. Nenhuma novidade.

Assim como criou Bolsonaro (e a campanha #EleNão foi o erro crasso, ao nominar o inimigo), o petismo alimenta agora o "herói" Sergio Moro. Está consolidando o seu destino eleitoral. Moro é a essência dessa polarização, muito mais que Bolsonaro x Lula. E a tendência é que esses dois extremos continuem mobilizando opiniões, paixões e votos pelos próximos anos.

Não vamos nos enganar. O caminho do diálogo, do equilíbrio e da razão contra a polarização seguirá complicado. Praticamente interditado pelas milícias virtuais e pelas claques das redes sociais, carentes de heróis e vilões. Os atalhos ideológicos à direita ou à esquerda são muito mais atraentes.

O que se viu nas manifestações deste domingo foi que milhares de brasileiros saíram às ruas para um quase inédito - nessas proporções - ato de apoio a uma liderança emergente, protótipo de herói (ou vilão). Nem a imprensa se acostumou ainda a essa prática, chamada por alguns de "protesto a favor" (oi?).

O #LulaLivre mobiliza menos gente e vem sempre reforçado pela rejeição à direita e ao novo governo retrógrado. Os atos pró-Moro (muito mais fortes e amplos que os atos pró-Bolsonaro, que são mero repúdio ao PT) se assemelham ao que já se viu no Brasil apenas com "heróis" mortos: Tancredo em 1985 e Senna em 1994. Isso deve significar algo na História.

terça-feira, 2 de julho de 2019

Legado para a democracia e para o bom jornalismo: Mais de 1.000 horas de vídeos no #ProgramaDiferente



Concluímos o 1º semestre desta 5ª temporada do #ProgramaDiferente com um total de 207 programas jornalísticos temáticos, sendo 23 já exibidos até agora neste ano, semanalmente, e outros 26 ainda inéditos, que serão disponibilizados até o final de 2019 (totalizando 233 programas em cinco anos de trabalho).

Foram mais de 500 mil visualizações nestes primeiros seis meses, mantendo a média anual de 1 milhão de espectadores e mais de 100 mil seguidores nas redes sociais.

Veja aqui um resumo de todos os programas.

Um sucesso absoluto para quem, antes da estreia em 2015, não tinha certeza nem mesmo se conseguiria colocar o 1º programa no ar.

Pois estamos aí com mais de 120 horas de material editado no formato do programa, além de outras 1.000 horas gravadas de matérias, debates, entrevistas, palestras e eventos. Um acervo inestimável!

Neste ano, ao contrário dos anteriores, não tivemos nenhuma parceria externa. É um jornalismo 100% independente, primando pela qualidade da informação e total liberdade de expressão, sempre com muito bom senso, responsabilidade e respeito à democracia, à diversidade, à pluralidade e à transparência dos fatos!

Veja também: 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Vamos começar a pensar nas eleições de 2020?

Acompanhar o noticiário político ou a renhida polarização nas redes sociais nos dá a impressão de estarmos vivendo um interminável 3º turno das eleições presidenciais.

Pior: ao que tudo indica, esse clima vai predominar também nas eleições municipais de 2020. Assim, parece bastante oportuno começarmos a pensar seriamente nas opções que temos para a Prefeitura e para a Câmara Municipal, para não repetirmos os mesmos erros nas urnas.

Vamos focar inicialmente no cenário de São Paulo, mas não dá para ignorar todo o contexto nacional. Queiramos ou não, a onda Bolsonaro ou anti-Bolsonaro, #LulaLivre ou #LulaPreso, seguirá influenciando o humor da população e interferindo diretamente nas intenções de voto. Pode apostar. O que nos resta, então? Embarcar em um dos lados dessa polarização extremada, que opõe os dois lados da mesma moeda desvalorizada da velha política, ou tentar construir uma proposta alternativa viável e consistente?

Essa opção mais equilibrada, equidistante dos dois pólos mais rançosos, rancorosos e intolerantes, mostrou-se um estrondoso fracasso em 2018. O eleitor fez do 2º turno da disputa presidencial praticamente um plebiscito - e não por acaso elegeu presidente aquele que melhor incorporou o figurino antipetista, refletindo o sentimento dominante da população.

Candidaturas de oposição sempre largam com significativa vantagem em São Paulo (especialmente na Capital, pois no Estado há uma perpetuação tucana desde 1994). Mas vamos analisar os resultados desde a primeira eleição direta, pós-democratização, para a Prefeitura de São Paulo. Em 1985, foi eleito o improvável Jânio Quadros para a sucessão de Mário Covas, último prefeito então chamado de "biônico", indicado pelo governador Franco Montoro, contra o favoritíssimo Fernando Henrique Cardoso.

Começou aí uma incrível sequência de vitórias oposicionistas: primeiro viria outra surpresa, Luiza Erundina, atropelada em seguida por Paulo Maluf (que fez seu sucessor, o "poste" Celso Pitta), derrotado posteriormente de forma humilhante para Marta Suplicy; eleito o oposicionista José Serra, fez do vice Gilberto Kassab seu sucessor (que foi reeleito), para logo ser retomado o tabu da oposição com a eleição de Fernando Haddad e, na mão inversa, João Doria (agora com a ascensão do vice Bruno Covas).

O placar, após 9 eleições paulistanas: Oposição 7 x 2 Situação.

E o que teremos de opções nessa próxima eleição? Quem sai na frente, governo ou oposição? Quais as chances do prefeito Bruno Covas? Até que ponto os apoios do presidente Jair Bolsonaro ou do governador João Doria vão pesar na escolha do eleitor? E o PT, terá força para seguir polarizando como principal sigla oposicionista? Surgirá algum novo nome para surpreender?

Uma novidade nas regras, que não pode jamais ser descartada nos prognósticos para 2020, é a proibição das coligações partidárias para as eleições proporcionais. Ou seja, os partidos podem estar coligados na campanha à Prefeitura, mas cada um terá que lançar sua própria chapa à Câmara Municipal. Isso reforça a importância estratégica do chamado "cabeça de chapa" ao Executivo.

Já existem movimentações no Congresso para tentar emendar novamente a Constituição e voltar a liberar geral, permitindo as coligações também para o Legislativo. Os principais interessados são os partidos pequenos, preocupados com a própria sobrevivência, mas também os grandes partidos querem manter o poder de atração e influência sobre as legendas menores. A controvérsia permanecerá até o final deste ano, prazo máximo para definir as regras eleitorais de 2020.

Quem são os pré-candidatos?

Por enquanto, as peças que se colocam no tabuleiro são essas: Pelo PSDB, o ainda pouco conhecido Bruno Covas tenta a reeleição. Oficialmente, o governador João Doria apóia seu colega de partido e sucessor na Prefeitura. Nos bastidores, porém, estaria incentivando também os amigos e aliados Joice Hasselmann (PSL) e Filipe Sabará (NOVO). Isso, somado ao desgaste natural e à rejeição crescente do PSDB, pode pesar na campanha.

Rixas internas, contudo, não são exclusividade dos tucanos. No bolsonarista PSL, o nome da deputada Joice Hasselmann pode ser preterido inclusive por essa proximidade com o presidenciável João Doria, provável adversário de Bolsonaro em 2022. O senador Major Olímpio e o deputado Eduardo Bolsonaro trabalham para convencer o apresentador José Luiz Datena a disputar a Prefeitura. Seria o novato com maior potencial de gerar um tsunami de votos.

Corre por fora a deputada estadual Janaína Paschoal, recordista na história do Brasil com seus mais de 2 milhões de eleitores, mas ela própria desestimula as sondagens e acena para a pré-candidatura do colega de Assembleia Legislativa, Arthur do Val (Mamãe Falei), liderança do MBL e eleito pelo DEM - que certamente não o lançará à Prefeitura. Ou seja, voltamos à estaca zero.

O PT segue indefinido sobre como deve tentar se reerguer depois das derrotas de 2016 e 2018. Há três vertentes: uma ensaia lançar Fernando Haddad ou até mesmo sua esposa, Ana Estela Haddad; outra entende que chegou a vez de Jilmar Tatto; e ainda uma terceira, minoritária, defende que o partido apoie a candidatura do ex-governador Márcio França (PSB), unindo as forças de centro-esquerda para confrontar o PSDB de Doria e o PSL de Bolsonaro.

Outros nomes que sempre são cogitados como possíveis candidatos: Celso Russomanno (PRB), Andrea Matarazzo (PSD), Paulo Skaf (MDB), Henrique Meirelles (MDB), Eduardo Jorge (PV), Marta Suplicy (sem partido) e, surgindo no cenário como estreante promissora, Tábata Amaral (PDT). Quem mais? E para a Câmara Municipal, o que os partidos pretendem apresentar para melhorar o nível do nosso Legislativo? Afinal, quem nós queremos para nos representar? Sugestões?

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Vereadores do Cidadania de São Paulo votam contra projeto que cria supersalários enquanto reajusta funcionalismo municipal em irrisórios 0,01%

Com o voto contrário dos vereadores do #Cidadania23, Claudio Fonseca e Soninha Francine, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou o PL 616/18, que concede apenas 0,01% de reajuste aos servidores municipais paulistanos, como mera formalidade, mas, por outro lado, cria supersalários (acima do teto da Prefeitura) para auditores fiscais.

Isso depois de anexar esse tema meio de "contrabando", em manobra regimental sem muito nexo nem transparência, ao projeto que tratava originalmente do reajuste e incorporação salarial dos funcionários da Educação. Como era de se esperar, a repercussão pública é péssima para o Legislativo.

Fica ainda mais gritante o contraste, no mesmo projeto, entre o reajuste irrisório de 0,01% à grande massa dos servidores e o privilégio de uma categoria específica que pode receber mais de R$ 34 mil (somado o salário na faixa de R$ 24 mil, que é o mesmo do prefeito, com gratificações de até R$ 10 mil).

Para os servidores da Educação, o reajuste será de 3,03% sobre o piso salarial de docentes, gestores e quadros de apoio do setor. O mesmo índice será incorporado sobre os padrões de vencimentos de todos os profissionais de Educação ativos e aposentados.

O vereador Claudio Fonseca, líder do Cidadania, que é também professor e presidente do Simpeem (Sindicato dos Profissionais em Educação no Ensino Municipal de São Paulo), chegou a apresentar projeto substitutivo que previa reajuste geral de 6,84% para o funcionalismo.

“Infelizmente o meu substitutivo foi derrotado, mas ainda assim os profissionais da educação terão 3,03%. E conseguimos assegurar que o pessoal do nível básico e nível médio terá plano de cargos, carreiras e salários. Enquanto isso não acontece, vai ter R$ 200 de abono emergencial e R$ 300 para o nível médio”, explicou o professor Claudio Fonseca.

Também foi aprovada na sessão extraordinária desta quarta-feira, 26 de junho, a última antes do recesso parlamentar de julho, a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) referente a 2020, que define as metas fiscais, as prioridades da administração e serve ainda de orientação para a LOA (Lei Orçamentária Anual), que estima as receitas e fixa as despesas do Executivo para o próximo ano. A previsão do orçamento do município para 2020 é de R$ 65,7 bilhões.

quarta-feira, 26 de junho de 2019

Umas perguntinhas sobre a novela Moro x Intercept: #LulaLivre ou #LulaPreso? E aí, STF?

O que aconteceu na 2ª turma do Supremo Tribunal Federal, justo aquela que se arvora de reunir os maiores "guardiões da Constituição", como Gilmar Mendes e Lewandowski?

Por que ambos divergiram na soltura do Lula? (aliás, quem está certo no voto divergente: Gilmar, que afirmou ser favorável à liberdade mas votou contra o habeas corpus, com a maioria, ou Lewandowski, que votou sozinho a favor?)

E, o mais grave diante dos fatos, por que adiar o julgamento sobre a suspeição do Moro, se tudo é tão ÓBVIO e EVIDENTE, como aprendemos nos ensinamentos disponibilizados a conta-gotas pelo site The Intercept e pela turma que se apresenta como única dona da verdade (em oposição à milícia contrária, tão fanática e idiotizada quanto, mas na mão inversa), que nos censura por ter dúvidas e fazer questionamentos?

Adiar por que? Deixar o Lula preso por mais 40 ou 50 dias só de castigo? Ou será que até a turma supostamente mais legalista do STF, sempre tão isenta, correta e imparcial (ui! até doeu o dedo para escrever esse trecho kkk), resolveu também fazer política? Ou eles não tem tanta certeza sobre tal suspeição? Ou estão com medo da opinião pública? Que estranho!

Leia mais:

E você, já tomou partido no julgamento do Moro?

Tentar envolver FHC nos escândalos da Lava Jato parece forçar a barra para justificar o #LulaLivre

#BlogCidadania23 mantém o apoio à Lava Jato

Os 50 anos do Pasquim no #ProgramaDiferente



O #ProgramaDiferente celebra os 50 anos do icônico e provocativo jornal alternativo brasileiro "O Pasquim", editado entre 26 de junho de 1969 e 11 de novembro de 1991, que viveu seu auge durante a ditadura militar, como oásis de liberdade, de talento, de humor e de criatividade da contracultura em meio à repressão.

Por incrível que pareça, meio século depois seguem atuais temas como censura, liberdade de imprensa, polarização entre esquerda e direita, e a oposição irreverente de artistas e jornalistas a um governo autoritário no Brasil, inclusive com alguns dos mesmos personagens daquela época. Assista.


terça-feira, 25 de junho de 2019

E você, já tomou partido no julgamento do Moro?

A polarização da moda é ser contra ou a favor o juiz Sergio Moro, que tem as suas conversas privadas publicadas a conta-gotas na imprensa, sob constante ameaça e expectativa de que algo mais explosivo e revelador ainda está por vir.

Não tem como separar a opinião pessoal que cada um tem deste caso dos interesses políticos que estão em jogo. Fala-se muito da suposta parcialidade do juiz e consequentemente da possível nulidade de suas decisões. Será isso mesmo? Ou tudo não passa de uma campanha mal disfarçada contra os resultados da própria Lava Jato? 

Cobrar “imparcialidade” de um juiz em uma Operação com o ineditismo, as dimensões e a complexidade da Lava Jato, que pela primeira vez enfrentou e botou na cadeia alguns dos protagonistas do poder no Brasil, é ser ingênuo ou agir de má fé.

A atuação do juiz Sergio Moro, pelo que as gravações vazadas demonstram até agora, confirma aquilo que todo mundo já sabia: a força-tarefa atuou de forma coordenada para prender corruptos e garantir, dentro da lei, que não houvesse margem de manobra para chicanas jurídicas de advogados espertos para libertar os corruptos condenados, como sempre ocorreu.

Parcialidade do juiz, nesse caso, seria manipular os autos, “fabricar” ou adulterar provas, pressionar depoentes, prender gente inocente, chantagear testemunhas, chancelar ilegalidades ou coisas do tipo. Não é o que se vê nos diálogos grampeados.

A imparcialidade de um juiz, que a lei determina, é para garantir o julgamento justo de todos. Nesse caso, a “parcialidade” flagrada é para garantir a condenação dos culpados, que tiveram e tem ampla defesa em todas as instâncias. Tudo na obediência estrita aos ritos legais. O que seria a “imparcialidade”, então? Liberar os corruptos?

Tudo é política?

Será que viveremos um interminável 3º turno das eleições presidenciais? Tudo gira em torno de ser Bolsonaro ou anti-Bolsonaro, Lula ou anti-Lula.

Aqui, com a licença de leitores, seguidores e simpatizantes, reafirmamos que não somos Lula nem Bolsonaro. Mas isso é quase uma ofensa para a milícia virtual de ambos. Confrontar o pensamento binário que é tendência no Brasil virou um pecado mortal.

Pois aqui nos declaramos pecadores. Críticos de ambos, jamais "isentões".

Aliás, quem é santo nessa história? Os bolsonaristas que defendem Sergio Moro por conveniência e oportunismo, para deixar Lula apodrecer na cadeia e manter a narrativa de que estão aí para "salvar" o Brasil dos comunistas, ou, na mão inversa, os petistas que o atacam exatamente por uma suposta perseguição ideológica ao PT e por essa condenação emblemática que, no fundo, seria mera prisão política?

Não estamos de um lado nem do outro, meus amigos (ou inimigos, tanto faz). Quem tem um pingo de racionalidade e isenção crítica a essa altura, com um inevitável toque de irreverência e sarcasmo, pediria "me inclua fora dessa". Chega de polarização burra!

O que está na berlinda é o Brasil, a democracia, as instituições republicanas. Percebem?

Um último pitaco: o maior erro do ex-juiz Sergio Moro, de tudo o que foi revelado até aqui, não foi a suposta parcialidade na sua atuação à frente da Operação Lava Jato. Isso sempre pareceu óbvio em todas as suas ações, declarações, artigos, palestras, entrevistas etc. Erro mesmo, imperdoável (na nossa humilde opinião), foi tomar partido de Bolsonaro. Essa onda bolsonarista, retrógrada, idiotizada, vai passar e ele vai acabar pagando caro por isso.

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Edgar Morin: "O vazio do pensamento, somado à corrupção, leva a uma perda de confiança na democracia, e isso favorece os regimes neoautoritários como vemos agora no Brasil"


Às vésperas de completar 98 anos de idade, o antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin segue lúcido e atuante, com seus pensamentos e reflexões sobre a vida e o mundo servindo como referência intelectual para muita gente que pensa também o Brasil, a política e a democracia, como tentamos fazer diariamente neste espaço.

A ex-ministra e ex-presidenciável Marina Silva, por exemplo, fundadora da Rede Sustentabilidade, é uma das personalidades políticas que gosta de mencioná-lo entre as suas principais influências. "Qualquer mudança é, em seu começo, apenas um pequeno desvio da rota até então considerada principal", cita Marina.
"Segundo Edgar Morin, vários desses pequenos desvios acontecem, mas nem todos prosperam. Muitos refluem ao leito anterior, deixando apenas vestígios. E, entre os que avançam, alguns podem se agigantar de tal modo que passam a ser a grande mudança, aquela a partir da qual haverá um corte estrutural, gerando a necessidade de novos padrões e alinhando o pensamento humano a novos objetivos, novas escolhas existenciais."

"Dessa visão se depreende que a força para ajudar a prosperar ou inibir certos desvios advém do plano da filosofia, dos valores existenciais e éticos."

"Perguntei a Morin como fazer para que um olhar e uma escuta diferentes identifiquem os primeiros sinais de que se está diante de uma grande mudança, sabendo diferenciá-la de simples ruídos recorrentes do atual sistema. Já nos acomodamos tanto com a direção por onde corre o leito do rio que temos dificuldades de enxergar outros caminhos possíveis."
Nesta entrevista que reproduzimos abaixo, Edgar Morin diz que "seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre". Para ele, a "humanidade deve tomar consciência da incerteza do futuro e de seu destino comum."

Seguimos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, diz Edgar Morin

Para um dos maiores filósofos vivos, humanidade deve tomar consciência da incerteza do futuro e de seu destino comum

Úrsula Passos
Folha de S. Paulo


Edgar Morin é um dos mais importantes e relevantes pensadores vivos. Prestes a completar 98 anos, em julho, segue escrevendo e expondo ideias em conferências em universidades e eventos.

O francês de origem judaica é um grande intelectual público, sempre disposto a participar do debate, seja ele sobre o conflito na Palestina, cinema, transgênicos, aquecimento global ou imigração.

Morin deve boa parte de seu sucesso ao pensamento complexo, conceito defendido por ele segundo o qual o conhecimento só é possível pela transdisciplinaridade.

Essa ideia impactou o pensamento sobre educação no mundo todo. Tanto que, em 1999 foi convidado pela Unesco a escrever um livro explicitando as modificações que julga necessárias na educação: “Os Sete Saberes Necessários à Educação no Futuro”, disponível em português.

Morin conversou com a Folha em São Paulo, onde esteve na semana passada para uma conferência sobre prazer estético e arte no Sesc. Ao longo da entrevista, acompanhado por uma caipirinha, sorriu bastante e bateu na mesa em momentos de indignação.

O senhor frequentemente fala da prosa e da poesia na vida, sendo a prosa a sobrevivência, o cotidiano do que somos obrigados a fazer, e a poesia, as relações de afeto, o jogo. O espaço da poesia está diminuindo e a prosa está ganhando? 

Ela não poderá jamais vencer totalmente, mas eu diria que a prosa fez progressos consideráveis com a industrialização não só do trabalho mas da vida, com a burocratização que encerra as pessoas num pequeno espaço especializado, com a técnica, que se serviu tanto dos homens quanto dos materiais.

Mas há uma resistência da poesia na vida privada, nas relações amorosas, de amizade, nos afetos, no prazer do jogo, no futebol, por exemplo. Há momentos de ambiguidade e devemos resistir a esse progresso enorme da prosa, que significa uma degradação da qualidade de vida.

O senhor tem uma conta bastante ativa no Twitter; ela é uma ferramenta de divulgação de seu trabalho? 

É uma forma de me expressar, de expressar ideias que me ocorrem, reações que tenho frente a acontecimentos e de uma forma muito concentrada. É um exercício de estilo, que permite que eu expresse e comunique aos outros o que penso e vejo em diferentes momentos do dia.

O senhor fala de um mundo padronizado, uniformizado. Como ficam o pensamento e a arte? 

Vivemos uma crise do pensamento. Aprendemos em nosso sistema de ensino a conhecer separando as coisas de maneira hermética segundo disciplinas. Os grandes problemas, porém, requerem associar os conhecimentos vindos de disciplinas diversas. Isso não é possível dada a lógica que comanda nosso modo de conhecer e de pensar.

Temos uma crise do pensamento que se manifesta no vazio total do pensamento político, ainda que, há coisa de um século, houvesse pensadores políticos que, mesmo quando se equivocavam, tentavam compreender o mundo, como Karl Marx e Tocqueville.

Meu esforço nas minhas obras é tentar efetivamente esse pensamento. O que estamos vivendo? O que está acontecendo? Para onde estamos indo? Claro que não posso fazer profecias, mas vejo o risco nas possibilidades que se abrem diante de nós.

Qual o maior desafio do ensino? 

Não inserimos no programa temas que podem ajudar os jovens, sobretudo quando virarem adultos, a enfrentar os problemas da vida. Distribuímos o conhecimento, mas não dizemos que ele pode ser uma forma de traduzir a realidade e que podemos cair no erro e na ilusão.

Não ensinamos a compreensão do outro, que é fundamental nos nossos dias, não ensinamos a incerteza, o que é o ser humano, como se nossa identidade humana não fosse de nenhum interesse. As coisas mais importantes a saber não se ensinam.

O senhor disse em uma conferência recente que a democracia ficou rasa e que a consciência democrática está degradada. Esse diagnóstico vale para o mundo todo? Como chegamos a isso? 

Chegamos progressivamente, primeiro porque as antigas concepções políticas se deterioraram e chegamos a uma política da urgência e do imediato. E, como sempre digo, ao sacrificar o essencial pelo que é urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial.

A crise da democracia se deve aos enormes poderes do dinheiro terem levado a casos de corrupção em todo lugar. O vazio do pensamento, somado a essa corrupção, leva a uma perda de confiança na democracia, e isso favoreceu os regimes neoautoritários, como vimos na Turquia, Rússia, Hungria e como vemos agora na crise da democracia no Peru e no Brasil.

A regressão histórica começou muito fortemente com os anos Thatcher e Reagan, que no fim do século passado impuseram a regra do liberalismo econômico absoluto, como se as leis da concorrência pudessem regrar e melhorar todos os problemas sociais, mas isso só favoreceu a especulação e a força do dinheiro, que controla a política.

A crise da democracia é o controle do poder político pelo poder financeiro, que é cego, que vê só os interesses imediatos, não tem consciência do destino da humanidade. A prova é a degradação da biosfera, que é evidente, e que vemos na degradação da Amazônia ou na poluição das cidades, por exemplo, mas que é ignorada em detrimento de um benefício imediato. Assim, damo-nos conta de que vivemos em uma época de cegueira e de sonambulismo. Isso participa na crise da democracia.

Eu vivi —sou muito velho, como sabe— nos anos 1930 e 1940, um período da ascensão da guerra, vínhamos de uma época em que acreditávamos estar em paz, mas numa crise econômica enorme que provocou a chegada de Hitler ao poder por vias democráticas.

Vivemos esse período como sonâmbulos, sem saber que íamos em direção ao desastre. Continuamos como sonâmbulos e estamos indo rumo ao desastre, em condições diferentes. O que é certo é o desastre ecológico, e o desastre dos fanatismos.

A menos que as pessoas tomem consciência da comunidade de destino dos humanos sobre a Terra, as pessoas se fecharão em suas identidades religiosas, étnicas etc. Vivemos um período obscuro da história, a única consolação é que esses períodos obscuros não são eternos.

Vemos hoje uma política das identidades. Como conciliar a democracia, o espírito republicano e as lutas identitárias? 

Uma nação é sempre a unidade de diversidades. Se não se vê a unidade, ela se empobrece e perde sua diversidade, e se só se vê a diversidade, ela perde a unidade. O comunitarismo é uma forma degenerada da diversidade necessária, é uma forma fechada para uma demanda justa de se manter ligado a suas origens. Infelizmente hoje perdemos a noção de unidade. Quando as comunidades se tornam importantes, elas esquecem a unidade nacional na qual se encontram.

Estamos numa época de interdependência. Concordo que as nações devam seguir soberanas, mas com soberania relativa, e não absoluta. Desde que haja um problema que diga respeito a toda a espécie humana, as nações deveriam subordinar seus interesses ao interesse coletivo.

O senhor já disse algumas vezes que o sul global, como chama, representa um pensamento anti-hegemônico. Ainda é o caso com a globalização? 

A globalização é a hegemonia dos valores do norte sobre o sul, é a continuação, por meios econômicos, da colonização, que era política. O sul deve resguardar o que conseguir —como os modos de viver— como resistência à hiperforça da técnica, do lucro, do sucesso, e deve conservar a noção de poesia na vida, essa é a missão do sul.

Como fazer isso em países pobres, de democracias instáveis, países menos expressivos no jogo político global? 

Não há uma receita. É preciso resguardar o que há de resistência, valores universalistas, humanistas e planetários, guardá-los enquanto preparamos tempos melhores.

Estamos num movimento perpétuo no qual há um conflito entre as forças de união, de abertura, de democracia, fraternidade, e as forças de luta, de desprezo, de degradação e de morte. Esse conflito, como dizia Freud, entre Eros e Tânatos, é um conflito que existe desde o começo do universo e vai continuar. A questão é saber de que lado se está. Essa é a única questão, o futuro ninguém conhece.

Como pensar modos de combater as fake news? 

As fake news não têm nada de novo, sempre houve notícias falsas. Durante uma dezena de anos a União Soviética dava informações falsas sobre o que acontecia com ela, a China de Mao Tse-tung também, o sistema hitlerista escondeu os campos de concentração. As mentiras políticas e as notícias falsas não são novas, são banais, o novo é a internet, a difusão de notícias que podem vir de qualquer lugar.

O problema é que, se quisermos informar o mundo, precisamos de pluralidade de fontes de informação e pluralidade de opiniões. Precisamos de uma imprensa diversa, com opiniões diversas, para que possamos fazer escolhas. Quando a imprensa perde sua diversidade, quando ela é controlada pela força do dinheiro, há uma diminuição do conhecimento e da informação.

O senhor sempre menciona o deus espinosano, que é intrínseco ao mundo, e não exterior a ele. Mesmo com toda a técnica e ciência que temos, as pessoas seguem com suas crenças num deus transcendental... 

Todas as sociedades, desde a pré-história, têm uma religião, uma crença na vida após a morte. A religião traz pela reza um sentimento que dá calma. Marx tinha razão ao dizer que a religião é o suspiro da criatura infeliz.

Com a morte do comunismo, houve um retorno das religiões. Temos o retorno dos evangélicos aqui no Brasil, do islamismo. Nos países árabes houve movimentos laicos enormes, mas tudo deu errado. A religião ganha onde a democracia falha, a revolução fracassa, o mundo moderno falha. A religião triunfa no fracasso da modernidade.

Como aceitar a incerteza e lidar com a angústia ou até mesmo o cinismo que advém disso? 

Mais do que sucumbir à incerteza, que nos dá angústia e medo, e que nos leva a buscar culpados e bodes expiatórios, é preciso enfrentar a incerteza com coragem, com ideias humanistas de fraternidade. As ciências acharam formas de encontrar certezas em incertezas. Eu digo sempre que a vida é uma navegação num oceano de incertezas passando por arquipélagos de certezas. Assim é a vida, não se pode mascarar a realidade.

Às vésperas de completar 98 anos, o que o estimula a continuar escrevendo e dando conferências? 

Há um demônio em mim, uma força no meu interior de intensa curiosidade. Eu conservei uma curiosidade da infância —eu tive um grande choque aos dez anos com a morte da minha mãe, eu envelheci muito, mas também isso me bloqueou na infância com a curiosidade e o amor pelo jogo. A sorte do mundo é cada vez mais incerta, não sabemos aonde vamos, então não podemos não estar preocupados com o futuro da espécie humana sobre a Terra.

Ainda há lugar para utopias? 

Há duas utopias. A má e a boa. A má é sonhar com uma sociedade perfeita, totalmente harmonizada; isso não é possível. Mesmo numa sociedade melhor, sempre haverá conflitos. A perfeição não está no universo, não está na humanidade.

A boa utopia é sonhar com coisas impossíveis mas que são, de certa forma, possíveis intelectualmente. 

Por exemplo, hoje há muita fome, mas poderíamos alimentar toda a humanidade, basta desenvolver as culturas, a agricultura orgânica. É possível criar uma sociedade nova com a paz sobre a Terra, podemos pensar no fim dos conflitos entre nações; essa é uma boa utopia. Um mundo que não seja totalmente dominado pelo poder econômico e que seja mais fraterno —é preciso ainda ter utopias.

domingo, 23 de junho de 2019

Marta Suplicy: É a credibilidade! (Com bobagens, Bolsonaro a gastou rapidamente)

A essa altura um grande número de brasileiros já percebeu que o eleito não é bem o que parecia. Alguns, motivados por ideologia das armas, combate à corrupção e posturas conservadoras, ainda permanecem na trincheira. Estes o defendem, não importa onde ou do quê. Tipo seita.

Outros votaram em alguém que conheciam pouco, mas que prometia combater o crime, a corrupção e a “velha política”. Mal sabiam eles sobre a influência dos três filhos e de uma relação com milicianos. Um grande número foi o voto antipetista, preferindo o desconhecido à possibilidade da volta do PT. Acreditavam que a anunciada equipe econômica certamente compensaria o já evidente despreparo do candidato.

Aos poucos, os eleitores estão desacreditando de Jair Bolsonaro. Creio que os primeiros a sentir desconforto foram os do voto antipetista, fulos com a incapacidade do governo em dialogar com o Congresso e a consequente paralisação do Executivo. Estes votos partiram, sem retorno.

Os do meio estão decepcionadas com o tempo gasto em bobagens, mas esperançosos por um milagre. Creem que após a reforma da Previdência as coisas melhorem.

Não vão melhorar. Porque o que permite investimento e confiança dos mercados vai além da esperada reforma. A palavrinha mágica é credibilidade —o que este presidente gastou em pouquíssimo tempo. Com provocações, paranoia exacerbada e picuinhas de adolescente. Agora, que já se vão quase seis meses, fica visível um padrão de comportamento de guerra com quem tem que dialogar e de contínuas manifestações que levam à desagregação política e social.

No início, as brigas “do nada” e os arroubos esquisitos podiam ser interpretados como despreparo, desarticulação, busca de uma identidade no novo papel... Hoje, não mais.

O presidente é uma pessoa muito doente. Tem enorme medo de inimigos imaginários, com sua segurança pessoal (daí sua obsessão com armas, bem antes do crime que o cometeu acontecer). Tem problemas com autoridade e leis, visíveis desde sua demissão do Exército.

Essa necessidade de mostrar autoridade vai ficando cada vez mais evidente quando quer provar que tem razão e propõe desatinos sobre trânsito, política ambiental… Ou quando provoca o presidente da Câmara ao dizer que manda mais do que ele.

Outras falas reveladoras são sobre sexualidade e identidade sexual. As piadas de mau gosto sobre japoneses e o órgão sexual, o fascínio que o faz exibir o “golden shower”, em reforçar abraços héteros.

As obsessões se refletem nas falas improvisadas, nos decretos enviados ao Congresso e em suas posturas idólatras a Olavo de Carvalho, Donald Trump, Binyamin Netanyahu. A identificação com figuras fortes e autoritárias provavelmente lhe dá segurança e gera bem-estar.

É um tipo de personalidade difícil de tratar e melhorar. Com a autoridade e o poder que exerce como presidente, não será agora que vai se modificar. O comprometimento emocional que vive não lhe permite aprender da experiência. É compulsivo e incontrolável. Então, serão mais alguns anos destes desmandos, desvarios, grosserias que envergonham, dizeres e desdizeres.

Estamos fritos —ou o colocamos na seção de entretenimento e tocamos o país do jeito que der.

Marta Suplicy é ex-senadora da República (fev.11 a jan.19), ex-ministra da Cultura (2012-14, gestão Dilma) e do Turismo (2007-08, gestão Lula), e ex-prefeita de São Paulo (2001-04)

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Saindo do armário com o #ProgramaDiferente



Na semana da tradicional Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, que acontece neste domingo, 23 de junho, na Avenida Paulista, e poucos dias depois de o STF decidir pela criminalização da homofobia e da transfobia, equiparando essas práticas condenáveis ao crime de racismo, o #ProgramaDiferente mostra como os jovens de hoje "saem do armário" e se assumem gays. A relação com a família, com os amigos, com a religião e todo o preconceito que ainda existe. Assista.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Tentar envolver FHC nos escândalos da Lava Jato parece forçar a barra para justificar o #LulaLivre

Ao escolher o dia do aniversário de 88 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para soltar a conta-gotas mais um trecho das conversas vazadas entre o ex-juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava Jato, e, pior, anunciando como bombástico algo que não está expresso no material publicado na série #VazaJato, o jornalista Glenn Greenwald e o site The Intercept abandonam de vez o bom jornalismo para fazer política partidária e campanha #LulaLivre.

Ao afirmar que a Lava Jato "fingiu investigar" FHC, o que se faz é uma tremenda forçada de barra para envolver o tucano no escândalo e com isso tentar comprovar a tese de defesa de Lula, de que a caça aos corruptos é uma operação parcial, politizada, anti-petista, usando justamente o artifício que os advogados e simpatizantes do PT tanto criticaram e ironizaram, na frase atribuída até então aos procuradores: "Não temos provas, mas temos convicção."

Quem tem lado, afinal? A #LavaJato ou a #VazaJato? Hoje não é difícil tirar conclusões. A edição deste material que apenas Gleen Greenwald teve acesso (com sua convicção anti-Moro) permite uma óbvia manipulação política: só vem a público aquilo que lhe interessa para a reação orquestrada dos formadores de opinião e da milícia virtual pró-Lula.

Se é de interesse público, jornalístico, por que não publicar todo o material de uma vez, permitir o acesso a outros jornalistas e veículos de imprensa, ou mesmo entregar a íntegra do conteúdo vazado das conversas privadas - se fossem mesmo tão comprometedoras, e ainda que a fonte seja preservada - às autoridades competentes para as providências cabíveis?

Desde o início defendemos aqui o interesse jornalístico do caso. Jamais embarcamos na estupidez do #DeportaGreenwald, na tentativa covarde e preconceituosa de desqualificação pessoal do jornalista norte-americano e do marido dele, o deputado federal David Miranda (PSOL), ou nas fake news que tentam mostrar que Gleen Greenwald  é financiado por organizações internacionais com interesses políticos na desmoralização da Operação Lava Jato.

Dissemos aqui: "Nem ataque nem defesa da Lava Jato se sustentam em argumentos racionais e consistentes". Até porque a direita bolsonarista é burra demais e a velha esquerda (do PT e de seus satélites) deixa cada vez mais claras as intenções pela nulidade jurídica da condenação do seu corrupto de estimação. Aí é dose embarcar de um lado ou de outro dessa polarização! Não dá! #TôFora

Conclusões da #VazaJato

Pelo material publicado até aqui, frustrante diante de tamanho burburinho e expectativa, o tiro jornalístico (ou político) pode sair pela culatra para quem tinha esperança de soltar Lula ou desmoralizar a Lava Jato.

O apoio popular ao ex-juiz Sergio Moro e à força-tarefa de procuradores, promotores, auditores e policiais federais segue inalterado. Juridicamente também tudo pode permanecer como antes, apesar da tentativa de fritura midiática globalizada.

Convenhamos, se até agora já foram revelados os maiores "podres" de Sergio Moro, ele é quase um santo. Ainda vai acabar canonizado. Qualquer outra figura pública perderia fácil de 7x1. Imagine se a medida de honestidade de cada um de nós fosse expor publicamente as nossas conversas privadas dos últimos cinco anos? Barbaridade!

O que se tem até agora? 1) Um vazamento ilegal, mas de interesse jornalístico; 2) As conversas privadas que não provam nenhum crime ou fraude processual; 3) O conjunto da obra sem nenhum valor jurídico para quem defende o fim da Lava Jato.

Contra a corrente que reprova as ações de Sergio Moro, composta por alguns jornalistas renomados, juristas e formadores de opinião, é interessante ler as opiniões da ex-juíza Denise Frossard, do professor Modesto Carvalhosa e do ex-presidente do STF, Carlos Velloso, para citar apenas três exemplos do outro lado. São elucidativas para quem quer fazer seu próprio juízo de valor sem virar "Maria vai com as outras". Tente. Faz bem.

Por aqui, o #BlogCidadania23 mantém o apoio à Lava Jato. Até que provem o contrário, é uma iniciativa importante, didática e necessária para a depuração da boa política. Vamos em frente!

domingo, 16 de junho de 2019

#BlogCidadania23 mantém o apoio à Lava Jato

Aqui neste espaço fazemos jornalismo e política, jamais religião ou mitologia. Portanto, não seguimos gurus nem idolatramos lideranças populares ou figuras midiáticas. Ao contrário, para citar os exemplos da polarização da moda, criticamos igualmente Lula e Bolsonaro e seus seguidores mais fanáticos e intolerantes.

Também não consideramos Sergio Moro um herói, mas um servidor público que desempenhou uma importante função como juiz e - pelo que entendíamos até ele assumir o ministério da Justiça - um dos idealizadores e responsáveis estratégicos pelo bom andamento da Operação Lava Jato.

Registre-se que sempre defendemos a democracia e o estado de direito.

Portanto, fica a dúvida: Estaremos desviando desses princípios ao manter o apoio à Lava Jato? Por que?

Precisamos responder com clareza e objetividade uma pergunta essencial, em meio a toda essa polêmica:
Consideramos criminosa a participação de Sergio Moro na coordenação das ações da Operação Lava Jato (comprovada agora por meio do vazamento de conversas privadas)? Sim ou não? 
Se SIM, defendemos a nulidade de suas ações? Todas elas ou só aqueles que se referem à condenação do Lula, que são as que foram pinçadas das conversas vazadas e mereceram destaque no material publicado pelo The Intercept
Se NÃO, é importante destacar que em uma Operação complexa e inédita como a Lava Jato parece natural que juiz e MP troquem informações sobre os caminhos jurídicos a tomar e que isso não significa nenhuma ilegalidade, nem tampouco indica fraude ou parcialidade que tenha interferência processual ou implique cerceamento na defesa do réu.
O #BlogCidadania23 é da segunda opinião. Mantemos o apoio à Operação Lava Jato. Entendemos que é fundamental para a democracia depurar a boa política.

Se há crimes, puna-se quem os cometeu. Excessos, ilegalidades, fraudes, idem. E isso vale para todos. Acusados e acusadores. Investigadores e investigados. Réus e vítimas. Corruptos e corruptores. Juízes, policiais, procuradores ou políticos envolvidos.

Até sobre a suposta perseguição exagerada ao Lula já comentamos por aqui, antes mesmo de todo esse escândalo das conversas vazadas, com uma posição bastante clara e objetiva: Chegou a hora de soltar o Lula: ou o Brasil prende todo político corrupto ou não prende ninguém, tá ok? (clique no link e leia até o fim antes de dar opiniões precipitadas e tirar conclusões pelo título, apenas).

Mas nada do que ocorreu até aqui é motivo suficiente para que nós entremos nessa campanha insana pela nulidade da Operação Lava Jato, que ganha corpo entre formadores de opinião e em alguns setores significativos da política e da sociedade.

Apoiamos a Lava Jato: no passado, no presente e no futuro.

Leia também:

#VazaJato: Escândalo sobre mensagens de Sergio Moro ameaça condenações da Operação Lava Jato

#VazaJato: Nem ataque nem defesa da Lava Jato se sustentam em argumentos racionais e consistentes

sexta-feira, 14 de junho de 2019

Morre o jornalista Clóvis Rossi

Um ícone do jornalismo, sem dúvida. Grande jornalista, excepcional repórter, ser humano de primeira qualidade.

Perdemos mais um dos insubstituíveis! Morre Clóvis Rossi. Morre um pouco a boa informação.

Triste. :´(

Vale reler seus artigos mais recentes, publicados na Folha, outros tantos republicados neste blog, e relembrar alguns de seus pensamentos:

"Num pais de miseráveis não é surpresa a barriga vir na frente da ética e da moral."

"Não adianta pregar aos convertidos, é preciso inventar e por em prática meios que arrebatem."

"Jornalismo, independentemente de qualquer definição acadêmica, é uma fascinante batalha pela conquista das mentes e corações de seus alvos: leitores, telespectadores ou ouvintes. Uma batalha geralmente sutil e que usa uma arma de aparência extremamente inofensiva: a palavra, acrescida, no caso da televisão, de imagens. Mas uma batalha nem por isso menos importante do ponto de vista político e social. […] Entrar no universo do jornalismo significa ver essa batalha por dentro, desvendar o mito da objetividade, saber quais são as fontes, discutir a liberdade de imprensa no Brasil."