quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O "novo" Haddad e o velho problema dos ônibus

Governo "novo", problemas antigos. No caso, mais um fato para desmontar a versão da propaganda oficiosa da gestão petista, que tenta incutir na cabeça do cidadão que o transporte público é a prioridade absoluta do prefeito Fernando Haddad. Aham... Balela! Mentira!

Vejamos: a imprensa relata hoje que a frota de ônibus em circulação na cidade é a mais velha das últimas três administrações, com quase seis anos de uso, em média, e que pelo menos 6% destes veículos (542 entre 8.760 ônibus, segundo dados oficiais) já passaram do limite de dez anos de fabricação. Ou seja, pelo contrato com a prefeitura, não poderiam mais circular. Estão irregulares.

Aí que entra o agravante do problema, que a mídia não aprofunda e o governo tenta esconder: quando estouraram as manifestações contra o aumento da tarifa, no ano passado, uma das respostas do prefeito foi anunciar uma auditoria internacional sobre o contrato bilionário que estava se encerrando, e prorrogá-lo enquanto seria elaborada a nova licitação pública.

Passado um ano, o que aconteceu? Absolutamente NADA! O contrato já encerrado segue prorrogado por tempo indeterminado, foi aberta e concluída uma CPI chapa-branca que não atendeu a demanda de abrir a "caixa-preta" do transporte, e a tal licitação não passou de sonho de uma noite de verão.

Voltando aos ônibus velhos em circulação, o problema se desdobra em duas questões que precisam ser resolvidas pela Prefeitura (e pela Câmara Municipal, atenção base governista e oposição!): 

1) Como a administração do PT remunera as empresas por esses ônibus que circulam com prazo de validade vencido, desrespeitando o contrato e atestando uma ilegalidade? Má fé? Ignorância da lei? Incompetência? Prevaricação? Improbidade administrativa?

2) Sob o ponto de vista dos empresários, sempre apontados como vilões do sistema (e quase sempre são, de fato), como exigir que eles comprem ônibus novos para colocar em circulação e cumprir o contrato que está encerrado há um ano, de um serviço que pode ser interrompido a qualquer momento e sobre o qual não há qualquer garantia de retorno do investimento, ou expectativa de participação na futura licitação?


Outra lembrança que desagrada os petistas: o atual contrato, encerrado e prorrogado por um ano, foi assinado na gestão da prefeita Marta Suplicy, pelo mesmo atual secretário municipal dos Transportes, Jilmar Tatto. Nem entraremos no mérito da falta de transparência e das suspeitas que pairam sobre o setor. É apenas uma constatação.

Quando o prefeito José Serra assumiu, em 2005, herdou o contrato novo e ônibus velhos, que foram gradualmente renovados até 2006 (ano em que a idade média da frota era de quase seis anos, porém foi zerada a circulação de veículos com mais de dez anos de fabricação, respeitando-se o contrato vigente).

Agora, com o retorno do secretário Jilmar Tatto, no cargo há 15 meses, retorna também o problema crônico dos ônibus velhos. Linhas cortadas, frota envelhecida, sistema sucateado, subsídio bilionário, contrato encerrado sem licitação à vista: eis o resumo das ações da gestão "nova" do PT para enfrentar os problemas criados pelo "velho" PT. Mais do mesmo. 

A resposta do prefeito? Sair por aí pintando faixas no asfalto. Centenas de quilômetros de faixas exclusivas, sem qualquer planejamento. É tinta branca no chão e só! Dane-se o resto (o trânsito, o comércio, a paciência do paulistano, a qualidade de vida). Pois é, Haddad vai acabar com a broxa na mão...

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Um passinho a frente, Haddad, por favor!

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Movimento suprapartidário realiza 1º encontro em SP

Foi um sucesso o 1º encontro aberto para debater os novos rumos que desejamos para São Paulo e para o Brasil, convocado por representantes do PSB, da Rede, do PPS e do PV e realizado na noite desta segunda-feira (24), com auditório superlotado no Sindicato dos Padeiros, na Bela Vista.

O objetivo é discutir e promover uma "nova política" em busca de uma sociedade sustentável (no aspecto econômico, social e ambiental) e na defesa da ética, das instituições democráticas e dos princípios republicanos.

A partir destas reuniões abertas para a sociedade, seja por meio de movimentos organizados ou da participação espontânea de cidadãos, nas redes e nas ruas, serão estabelecidas diretrizes temáticas e programáticas, possibilitando a ampliação deste novo bloco democrático para além da polarização tradicional da política.

Da musa dos "rolezinhos", a menina Yasmin Oliveira (foto), com apenas 15 anos, destaque na Veja e no Fantástico, que tem mais de 120 mil seguidores nas redes sociais e mora na favela do Paraisópolis, à deputada federal e ex-prefeita Luiza Erundina, passando pelos juristas Miguel Reale Júnior e Antonio Claudio Mariz de Oliveira, o movimento vem crescendo e se consolidando.

Iniciativa semelhante acontece em âmbito nacional na "construção programática" da coligação que apóia Eduardo Campos e Marina Silva, ampliada em São Paulo pelo PV, que apresentou as pré-candidaturas do médico e ambientalista Eduardo Jorge à Presidência da República e do vereador Gilberto Natalini ao Governo do Estado, ambos atuantes nesta frente suprapartidária.

Pelo PSB, além de Luiza Erundina (assista), estiveram presentes ao 1º encontro, entre outros, o vereador Eliseu Gabriel, o dirigente Paulo Matheus, o ZP, representando o presidente estadual do partido, deputado Marcio França, lideranças expressivas como Muna Zeyn, Rosana Chiavassa e o deputado federal Walter Feldman, ex-PSDB, fundador da Rede Sustentabilidade e que acompanhou Marina Silva na filiação transitória ao partido de Eduardo Campos.

Pela Rede Sustentabilidade, marcaram presença e se manifestaram militantes, dirigentes locais e nacionais como Célio Turino, Bazileu Margarido, Marcela de Moraes, João Paulo Capobianco, Mara Prado, José Gustavo Barbosa, Acauã Rodrigues dos Santos, Rose Losacco e Carlos Buzolin, entre outros.

Pelo PPS, o vereador Ricardo Young, os ex-vereadores Claudio Fonseca e Soninha Francine, o presidente paulistano Carlos Fernandes, dirigentes nacionais como Ulrich Hoffmann, Helena Werneck e Maurício Huertas, além de filiados e dirigentes paulistas e paulistanos.

O 2º encontro aberto deste movimento suprapartidário já está marcado para o dia 20 de março, quinta-feira, às 19h, no Sindicato dos Engenheiros de São Paulo (Rua Genebra, 25, centro, ao lado da Câmara Municipal).

Neste 2º encontro serão debatidos dois temas, com propostas para suas respectivas soluções: "Crise Econômica", apresentado pelo professor e economista Eduardo Gianetti da Fonseca, consultor de Marina Silva e Eduardo Campos, e "Caos Urbano", pelo engenheiro Lúcio Gregori, ex-secretário de Serviços e Obras e de Transportes na gestão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992) e idealizador do projeto "Tarifa Zero".

Os próximos temas serão definidos pelos próprios participantes do encontro de 20 de março. Divulgaremos oportunamente a agenda de reuniões que ocorrerão na capital e no interior do Estado, bem como as opções e ferramentas para participação (presencial e virtual), e para o encaminhamento de ideias e propostas.

Leia mais:

A ideia "verde" que pode e deve amadurecer...

Como estimular a participação do jovem na política

São Paulo entre PT, PSDB e uma nova alternativa

Dando um rolê na mídia sobre os "rolezinhos"

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

PSB, Rede, PPS e PV se reúnem nesta segunda

Está marcada para esta segunda-feira, 24 de fevereiro, a primeira reunião convocada por representantes do PSB, da Rede, do PPS e do PV para discutir uma "nova política" em busca de uma sociedade sustentável (no aspecto econômico, social e ambiental) e na defesa da ética, das instituições democráticas e dos princípios republicanos.

A partir desses encontros começa também a se consolidar um bloco alternativo e democrático, fora da polarização tradicional, reproduzindo o que já foi iniciado em âmbito nacional na "construção programática" da coligação que apóia Eduardo Campos e Marina Silva, ampliada em São Paulo pelo PV, que apresentou as pré-candidaturas do médico e ambientalista Eduardo Jorge à Presidência da República e do vereador Gilberto Natalini ao Governo do Estado.

A ideia é fazer um debate aberto com a sociedade, seja por meio de movimentos organizados ou da participação espontânea de cidadãos, nas redes e nas ruas, para discutir os novos rumos que desejamos para São Paulo e para o Brasil.

O primeiro encontro aberto com este objetivo está marcado para segunda-feira, dia 24 de fevereiro, às 19h, no Sindicato dos Padeiros (Rua Major Diogo, 126, Bela Vista). Participe!

Leia mais:

A ideia "verde" que pode e deve amadurecer...

São Paulo entre PT, PSDB e uma nova alternativa

Carlos Fernandes: "A decisão de São Paulo"

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Um passinho a frente, Haddad, por favor!

Estão fazendo aniversário as primeiras manifestações contra o aumento da tarifa e por mais qualidade do transporte público na gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), que atingiram o seu auge em junho de 2013, quando o povo nas ruas, com estas e outras justas reivindicações, começou a reescrever a história do Brasil.

Pois, passado um ano, a Prefeitura segue em marcha lenta no enfrentamento do caos no sistema, com o corte e o seccionamento de linhas, a quantidade insuficiente de ônibus em serviço, uma frota envelhecida e a prorrogação por tempo indeterminado de um contrato encerrado que não traz nenhum benefício ao usuário, visando apenas o lucro dos empresários do setor.

O que fez a Prefeitura para responder às manifestações? Segurou o preço da tarifa em R$ 3, anunciou uma auditoria nos contratos (que levou um ano para ser licitada e deve levar mais um ano para ser realizada) e orientou a sua base na Câmara para aprovar uma CPI chapa-branca enquanto o clamor popular, o bom senso e os princípios da boa governança exigiam que se abrisse a caixa-preta do transporte.

Objetivamente, o que se viu de ação do prefeito Haddad foi mandar pintar faixas exclusivas de ônibus em todas as principais vias da cidade. Em tese, o raciocínio é correto: devemos priorizar o transporte público em detrimento do interesse individual, representado pelo automóvel particular, ao mesmo tempo principal causador e maior vítima dos congestionamentos.

Porém, sem qualquer planejamento, a simples proliferação das faixas de ônibus tornaram caótico um problema que já era grave. Se é verdade que diminuiu o tempo do deslocamento das pessoas de um ponto a outro, é igualmente notável que a população está passando mais tempo à espera do ônibus, assim como são danosos os efeitos ao trânsito e ao comércio de rua.

A novidade agora é a promessa de ir além das faixas exclusivas e construir 150 km de corredores de ônibus. Para tanto, diz a Prefeitura, será necessário desapropriar até 7.000 imóveis em São Paulo. Num governo que corta até o kit de material escolar alegando falta de recursos e a necessidade de fazer economia, é difícil acreditar na viabilidade da proposta.

A palavra do prefeito também não vem merecendo muito crédito, ultimamente. Desde a campanha, quando anunciou em vão que teria recursos de sobra graças à parceria privilegiada com o governo federal, passando pelo abandono de promessas absolutamente inexequíveis como o Arco do Futuro e a própria auditoria dos contratos de empresas e cooperativas de ônibus, que sorvem anualmente dos cofres públicos subsídios bilionários e crescentes, o que o prefeito fala não se escreve.

O que a população cobra, com razão, é que as intervenções da Prefeitura no sistema de transporte resultem em melhor qualidade, mais agilidade e maior oferta de linhas. Nós, da oposição, esperamos tudo isso mais a transparência e a eficiência econômica e administrativa. O que temos hoje são ônibus superlotados, a espera interminável no ponto e uma necessidade maior de deslocamentos causada pelo corte e pela mudança constante de itinerários. Portanto, um passinho a frente, prefeito, por favor!

Carlos Fernandes é presidente municipal do PPS de São Paulo e foi subprefeito da Lapa (2010/2011)   

Leia também:

 "A decisão de São Paulo"

"A  insegurança da cidade e um prefeito inseguro"

"Haddad e o despreparo da cidade"

"A cidade poluída de Haddad"

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Contardo Calligaris: "Linchadores e bandidos"

Diminuiu a exclusão, mas será que existe uma comunidade na qual valha a pena sentir-se incluído?

Querem saber se acho que o Brasil melhorou desde os anos 1980.

Se estou de bom humor, digo que sim: falo da época em que o telefone era imóvel para investimento, a inflação transformava qualquer crédito em usura, carro usado custava mais que carro novo e comprar um notebook significava "conversar" com um comissário da Varig, para que ele trouxesse o aparelho de Miami.

Se estou de mau humor, digo que não: falo de nossos estudantes que se perdem no ranking internacional, da mediocridade de grande parte da classe política, da vagarosidade dos serviços básicos e, enfim, da produtividade pífia, da ganância e da corrupção, que tornam absurdamente caro tudo o que é nacional.

Seja qual for o humor, lembro que, nas últimas décadas, diminuiu substancialmente a percentagem dos excluídos, ou seja, diminuiu aquela miséria que situa alguém num barco à parte, na deriva e sem relação com o rumo comum.

Mas logo paro: será que, ao longo dessas décadas, constituiu-se um rumo comum? Diminuiu a exclusão, disse, mas será que passou a existir uma comunidade na qual seja possível e valha a pena sentir-se incluído? Será que existe, no Brasil, o sentimento de uma comunidade de destino, passado e futuro? Será que o Brasil, como nação, existe dentro de nós que aqui vivemos?

Na noite de 31/1, no Rio de Janeiro, um garoto de rua foi encontrado nu, preso a um poste com uma trava de bicicleta no pescoço. Ele foi seviciado por uma turma de motoqueiros vigilantes. O garoto, nas fotografias, parece um filhote esgarrado; mas cuidado com a ternura: se você o encontrasse livre, com os amigos dele, no escuro do aterro do Flamengo, você procuraria ansiosamente as luzes de uma viatura. Por outro lado, provavelmente, o bando que o prendeu lhe inspiraria um medo análogo, se não pior.

Enfim, alguns se indignaram pela ação dos vigilantes. Outros felicitaram os vigilantes, conclamando que está na hora de os cidadãos de bem reagirem.

Na Folha (pág. 3, 11/2), o debate culminou com os artigos de Rachel Sheherazade, âncora do "SBT Brasil", e Ivan Valente, deputado federal pelo PSOL: Sheherazade cansada do "coitadismo" de esquerda, que protege os criminosos, e Valente achando que a violência dos vigilantes só gera "mais violência".

Não é preciso brigar, visto que linchadores e bandidos são filhos de um mesmo problema endêmico: aqui, a coisa pública não vingou --o Estado, para nós, é uma pompa, mais ou menos ridícula, ele não é nada dentro da gente. Se não tem coisa pública, por que eu não viveria matando quem não me entrega seu relógio? Se não tem coisa pública, por que eu não lincharia quem me assalta?

Linchadores e bandidos vingam porque não vivemos num país comum (com mesmos valores, história e antepassados para nos inspirarem). Habitamos uma zona de tiro livre, ou seja, uma área de combate em que ninguém é "dos nossos", mas tudo o que mexe é um alvo permitido.

Ao longo do debate, foi citada, mais de uma vez, a receita de Nova York nos anos 90, "tolerância zero", como se fosse uma medida de repressão. Não era. Nunca foi. "Tolerância zero" era uma estratégia para fazer existir o espaço público. Sua moral: se você não quer assaltos no parque, cuide das flores. Não deixe que mijem nos canteiros, e o número dos assassinatos diminuirá. Diminuiu.

Não é que os criminosos tenham medo de flores. É que as flores manifestam que a comunidade existe no coração e nas mentes de todos (e ela vai se defender).

Por que não haveria em nós o sentimento de uma comunidade de destino? Há razões antigas, sobre as quais se debruçam os intérpretes do Brasil. Mas há também razões imediatas. Clóvis Rossi, na Folha de 13/2: "alguém precisa aparecer com um projeto de país, em vez de projetos de poder".

Em 30 anos, desde que cheguei ao Brasil, parece que só assisti aos conflitos de projetos de poder.

Mais duas notas. 1) O sentimento de uma comunidade de destino, que é o que faz uma nação, não tem nada a ver com o nacionalismo. Ao contrário, o nacionalismo surge para compensar a falta desse sentimento. Portanto, torcer no Mundial ou, como Policarpo Quaresma, falar tupi e tocar maracá, tudo isso é uma grande perda de tempo.

2) Será que, nessa zona de tiro livre, só tem espaço para linchadores e bandidos? Não, claro, há todos os outros, que são (somos) os "salve-se quem puder" --com diferenças: alguns podem fugir para Miami, outros só podem baixar os olhos e caminhar rente aos muros. 

(Publicado na Folha de S. Paulo desta quinta-feira, 20 de fevereiro)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Dois "velhinhos" sintonizados com o mundo atual

Comemorando seus 93 anos, a Folha de S. Paulo publicou hoje uma espécie de carta de princípios ("O que a Folha pensa"), que norteia suas posições sobre vários assuntos polêmicos e os pontos de vista defendidos pelo jornal. 

Da mesma geração, às vésperas dos 92 anos da fundação do PCB (que em 1992 daria origem ao PPS), aplaudimos a iniciativa, que demonstra posições sensatas, equilibradas, coerentes e avançadas, num período em que o retrocesso e o conservadorismo batem às portas do Brasil e do mundo.

Leia também: Entre tantos partidos, por que o PPS?

Vejamos alguns exemplos do posicionamento defendido pela Folha, que coincidem com as posições que temos adotado no Blog do PPS e nas ideias debatidas na #Rede23

COPA E OLIMPÍADA
O Brasil merece sediar esses grandes eventos esportivos, por sua projeção simbólica e pela oportunidade de expandir turismo e obras de infraestrutura. Mas a sociedade deve cobrar mais planejamento e maior transparência nos gastos. Na Copa do Mundo, o montante de recursos públicos investidos foi excessivo, e o legado deverá ficar aquém do desejável.


MANIFESTAÇÕES
Os protestos de junho revelaram saudável inconformismo e sacudiram o sistema político do torpor em que se encontrava. Se o direito de manifestação deve ser protegido, nem por isso pode ser exercido sem nenhuma regra. Atos de violência contra pessoas ou contra o patrimônio público ou privado precisam ser coibidos pela polícia, que deve agir de modo a garantir a ordem pública e os direitos de todos com o mínimo de danos. Vândalos devem ser identificados e punidos, nos termos da lei; manifestantes não podem ser confundidos com bandidos.


MOBILIDADE URBANA
O caos nos maiores centros urbanos não deixa dúvida: a prioridade deve ser dada ao transporte coletivo, em detrimento do individual. Medidas restritivas, como rodízio e pedágio urbano, são imprescindíveis, e ciclovias seguras precisam ser construídas. É fundamental, além disso, planejar o crescimento da cidade de forma mais compacta, demandando menos deslocamentos. A expansão do Metrô precisa ser mais célere, e os ônibus devem circular em corredores modernos, com faixa de ultrapassagem e pagamento de tarifa antes do embarque. Como tais iniciativas requerem investimentos de monta e como o sistema já é fortemente subsidiado, a demanda por uma tarifa zero, ao menos por ora, é irrealista.


DROGAS
Desde a década de 1990, o jornal reconhece a ineficácia de políticas com foco na repressão e defende uma abordagem pela ótica da saúde pública. Preconiza, assim, a descriminalização do uso das drogas. A partir de 2011, considerando, por exemplo, que a produção e a venda dessas substâncias, se taxadas e controladas, poderiam gerar recursos para prevenção e tratamento, passou a ser favorável a uma legalização cautelosa e gradual. O ponto de partida seria a maconha, com limitações e campanhas educativas análogas às do álcool e do tabaco. Nada disso, no entanto, deveria ocorrer sem coordenação internacional. No plano doméstico, a iniciativa deve passar por mecanismos de consulta popular, como plebiscito e referendo.


SAÚDE
O quadro é conhecido: carência de médicos em regiões afastadas, ausência de leitos nos hospitais e enormes filas para consultas e exames. Faltam recursos, mas o sistema não melhorará se não passar por uma reforma gerencial, o que inclui melhores condições de trabalho. A eficiência hospitalar, por exemplo, é muito baixa, e a má distribuição das verbas deixa o país com um número insuficiente de equipes de saúde da família. O modelo das organizações sociais, com a devida fiscalização, oferece ganhos em termos de agilidade de serviços e gestão de recursos humanos. É preciso, além disso, melhorar o ensino de medicina. Enquanto o país não forma o número de profissionais de que necessita, o recurso a médicos estrangeiros é aceitável, embora seja apenas paliativo.


BOLSA FAMÍLIA
O Brasil ainda precisa de programas de transferência direta de renda, mas eles devem exigir contrapartida do beneficiário. O Bolsa Família, por exemplo, acerta ao cobrar que os filhos de 6 a 15 anos estejam matriculados em uma escola e que frequentem 85% das aulas; que gestantes façam exame pré-natal; e que as crianças menores de sete anos sejam levadas a postos de saúde para vacinação e acompanhamento nutricional. O programa, entretanto, peca pelas poucas portas de saída, ou seja, oportunidades criadas para que os beneficiários deixem de precisar da bolsa.


CRACOLÂNDIA
Nenhuma ação terá sucesso se não integrar poder público nos três níveis, além de equilibrar repressão policial ao tráfico e medidas de cunho assistencial para o usuário. É necessário, além disso, haver um plano de médio prazo para restaurar ruas e edifícios degradados.


ABORTO
Como regra geral, o jornal entende que o tema deve ser tratado à luz da saúde pública e dos direitos da gestante. Considera que o STF agiu bem ao admitir interrupção da gravidez de feto anencéfalo, mas entende que eventual ampliação dos casos em que o aborto não é considerado crime deveria ser objeto de plebiscito ou referendo. Independentemente disso, é preciso estimular políticas de planejamento familiar e ampliar a difusão das pílulas do dia seguinte, o que reduziria a incidência estatística do aborto.


ECONOMIA
O país precisa crescer de forma equilibrada, tornando-se menos suscetível a turbulências internacionais e buscando assegurar a todos os brasileiros os benefícios do desenvolvimento. Ajustes necessários, ainda que pouco populares, devem ser feitos o quanto antes e de forma paulatina, a fim de que a população não seja submetida a choques. É crucial, além disso, que o ambiente de negócios funcione sob regras simples e previsíveis. Entre outras, as seguintes ações devem ser adotadas:


  • Reduzir o gasto público como proporção do PIB
  • Reduzir a dívida pública
  • Perseguir inflação baixa e reduzir meta oficial no médio prazo
  • Reduzir e reformar progressivamente a carga tributária, tornando o sistema mais simples, ágil e justo
  • Aumentar a parcela do gasto público com investimentos na infraestrutura
  • Direcionar a política industrial para inovação e tecnologia
  • Aumentar eficiência do serviço público
  • Reformar a Previdência, o que implica, entre outras medidas, aumentar a idade da aposentadoria conforme a população fique mais longeva
  • Conceder mais serviços públicos à iniciativa privada
  • Fortalecer as agências reguladoras
  • Acabar com a guerra fiscal entre os Estados.

EDUCAÇÃO
Melhorar a qualidade do ensino é central para o futuro do país. A lista de deficiências é imensa e não passa apenas pela carência de recursos. A formação de muitos professores é ruim. Atrair mais talentos demanda incentivos, como valorização salarial, plano de carreira e bônus por desempenho. Exames de avaliação são ferramentas importantes para estabelecer metas e podem guiar os necessários programas de aprimoramento e reciclagem. É imperioso, além disso, formular um currículo nacional mínimo, que seja preciso e enxuto, sem experimentalismos. Iniciativas que fracassem na prática, como foi o caso da progressão continuada, devem ser modificadas o quanto antes.


CULTURA
Por sua dimensão pública, mecanismos de incentivo à produção cultural são bem-vindos. Políticas específicas deveriam focalizar o circuito escolar e educacional, a preservação do patrimônio e o estímulo a setores que não encontrem sustentação no mercado. Defensor do respeito aos direitos autorais, o jornal é fortemente contrário ao dirigismo cultural, ao controle de conteúdo e à censura, estando de acordo com a classificação indicativa e a autorregulamentação. É a favor, portanto, da livre produção de biografias não autorizadas, com responsabilização posterior, como em qualquer caso envolvendo liberdade de expressão e de imprensa.


INTERNET
As revelações de Edward Snowden a respeito das atividades de espionagem do governo norte-americano reforçaram os estímulos para que a comunidade internacional discuta a descentralização da gestão da internet. Ao lado dessa agenda, persiste a necessidade de garantir a concorrência no ambiente digital, cuja tendência ao monopólio tem-se tornado evidente. No plano nacional, é crucial assegurar a remuneração para os produtores de conteúdo e aprovar, o quanto antes, o Marco Civil da Internet -lei com a função de regular direitos e deveres no mundo virtual. Seus pontos mais importantes são a neutralidade de rede (princípio que impede a operadora de alterar a qualidade da conexão pra privilegiar ou prejudicar determinado site) e a regra sobre conteúdo postado por terceiros (os sites só devem ser responsabilizados se, após ordem judicial, não removerem material questionado).


POLÍTICA
O jornal defende mecanismos que aumentem a transparência e a fiscalização por parte da sociedade. Os exemplos recentes de maior impacto foram a Lei de Acesso à Informação e o fim do voto secreto no Congresso. No que respeita à necessidade de uma reforma, pressão contínua pela melhoria da cultura política tende a ser mais efetiva que propostas mágicas. No passado, o parlamentarismo foi apoiado, mas não está mais em pauta. Os pontos hoje endossados são, entre outros:


  • Adoção de voto distrital misto com lista aberta (sistema existente na Alemanha, no qual o eleitor faz duas escolhas: a de uma legenda e a de um candidato individual, em distritos específicos)
  • Cláusula de desempenho (mecanismo que outorga tempo de TV e fundo partidário apenas a siglas com representatividade significativa no Congresso)
  • Voto facultativo
  • Correção da distorção entre as bancadas na Câmara dos Deputados (atualmente, parlamentares de Estados menores representam menos eleitores que os de Estados maiores)
  • Prestação de contas de campanha em tempo real, na internet
  • Estabelecimento de teto em valores absolutos para doações de pessoas físicas e jurídicas, que devem ser admitidas.

SEGURANÇA PÚBLICA
A polícia do Brasil precisa ser mais bem treinada e deveria contar com melhores condições de trabalho e melhores salários. No cumprimento de sua missão, a lógica do confronto sistemático deveria ser substituída pela da prevenção e da inteligência. Na outra face dessa moeda, o jornal entende que o endurecimento das penas não é a resposta mais adequada ao problema da criminalidade. É contra a adoção da pena de morte e da redução da maioridade penal, mas considera que deveria ser ampliado o prazo de internação possível do adolescente infrator e que, no caso dos adultos, a progressão de regime nas prisões deveria ser mais difícil em certos tipos de crime. Por outro lado, seria desejável uma ampliação do uso das penas alternativas. Em tese, com o amadurecimento legislativo, a pena de prisão deveria ser reservada apenas aos criminosos que empregassem violência ou grave ameaça na consecução de seus delitos.


UNIÃO HOMOSSEXUAL
Casamento civil entre pessoas do mesmo sexo deve ser colocado em pé de igualdade com relações heterossexuais. Cidadãos não podem sofrer discriminação de nenhuma natureza em decorrência de suas escolhas privadas relativas à orientação sexual.


COTAS
Não deve haver reserva de vagas a partir de critérios raciais, seja na educação, seja no serviço público. São bem-vindas, porém, experiências baseadas em critérios sociais objetivos, como renda ou escola de origem.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Faróis pifados, cidade quebrada, prefeito inoperante

Para quem reclamava dos semáforos apagados, a gestão Haddad agiu rápido para "resolver" o problema: agora eles ficam acesos de uma vez nos três sinais (verde, amarelo e vermelho). Haddad é GÊNIO!!!

Mas farol pifado é o de menos! Ruinddad mesmo é um governo quebrado com um prefeito inoperante!

Deu PT em  São Paulo: Perda Total! Socorro!!!

Aí lemos na capa dos jornais: Prefeitura de São Paulo corta 12 árvores de parque tombado na zona sul.

Quer dizer, além de não entregar os parques prometidos, Haddad acaba com o que já existe... Augusta, Mooca, Vila Ema, Cemucam...

"Não temos dinheiro", é o mantra da malddad.

Isso porque, alguns esquecem, a dívida impagável da cidade tem o dedo do próprio prefeito, quando ainda era Secretário de Finanças da administração Marta Suplicy. Depois, durante a campanha de 2012, veio com a ladainha de parceria privilegiada com o governo Dilma, e a propaganda do "homem novo" que São Paulo precisava e blablablá! Aham! Aquilo deu nisso!

Ao lado, outro exemplo inequívoco da genialidade da gestão Haddad!

Deve ser a primeira obra de ACESSIBILIDADE INACESSÍVEL do mundo: num cruzamento da avenida Paes de Barros, uma das principais vias do bairro da Mooca, a Prefeitura construiu uma rampa de acesso para cadeirantes, mas não removeu os obstáculos da pista.

Fala sério!

Não são exemplos indiscutíveis da genialidade e da eficácia administrativa do PT?

Leia também:








Haddad: de braços abertos e contas fechadas

Se já não bastasse a incomPTência de praxe, a mais nova marca da ação cosmética e marqueteira do prefeito Fernando Haddad na Cracolândia é a falta de transparência.

A Prefeitura está se recusando a divulgar os custos do primeiro mês do programa "De Braços Abertos". O argumento oficial é que "esses dados ainda não foram fechados e não há prazo para a divulgação". Ah! Conta outra, prefeito!

Os gastos com hospedagem nos "pulgueiros" do centro (que nos inspirou até a dar uma sugestão irônica de jingle para Haddad), o total de benefícios pagos e quantos usuários continuam no programa, por exemplo, são desconhecidos.

Outra (des)informação equivocada ou maliciosamente adulterada: diz que o "fluxo na cracolândia" caiu 70%. Claro, além de serem escondidos em muquifos, a visibilidade da ação espantou momentaneamente alguns traficantes e usuários do local, que migraram para outros pontos da região central e bairros próximos. Basta um rolezinho na cidade, Haddad.

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De braços abertos para o tráfico de drogas

Prefeitura coloca estruturas "antimendigos" em viaduto

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

A ideia "verde" que pode e deve amadurecer...

O trocadilho é inevitável, mas o assunto é sério. Se der certo, o desfecho pode ser surpreendente e o efeito tão positivo como foi a decisão de Marina Silva ao anunciar, em outubro do ano passado, que apoiaria a candidatura presidencial de Eduardo Campos, em uma "construção programática" da sua Rede Sustentabilidade com o PSB. Logo em seguida, o PPS também anunciou o apoio a essa coligação.

Agora, a novidade, que todos trabalham para concretizar, é a integração do PV a este projeto. Isso significaria um grande avanço na consolidação de um bloco alternativo e viável de poder, fora da polarização tradicional e desgastada entre PT e PSDB. Além de ser uma reaproximação memorável de Marina com o Partido Verde.

Seria ainda um reencontro de forças históricas na luta pela democracia no país, sensíveis às manifestações e demandas populares, que buscam juntas uma "nova política" em defesa de uma sociedade sustentável (no aspecto econômico, social e ambiental) e na defesa da ética, das instituições democráticas e dos princípios republicanos. 

Em São Paulo está se formando uma frente democrática para reproduzir o que já foi iniciado em âmbito nacional por PSB, Rede, PPS e PPL, que é um debate aberto com a sociedade, seja por meio de movimentos organizados ou da participação espontânea de cidadãos, nas redes e nas ruas, para discutir os novos rumos que desejamos para o país.

Marcado pelo espírito suprapartidário e pelo resgate do "sonho roubado" pelo PT, a intenção do movimento é formular uma nova proposta para São Paulo e para o Brasil, protagonizado não mais pelo falso "novo", mas de fato pela população que clama por mudanças e não reconhece nos atuais mandatários e partidos políticos uma representação digna e legítima dos seus anseios.

Com o aval das suas direções nacionais e estaduais, representantes do PSB, da Rede e do PPS, reproduzindo a coligação nacional em torno de Eduardo Campos e Marina Silva, ampliada a partir de São Paulo pelo PV, que apresentou as pré-candidaturas do médico e ambientalista Eduardo Jorge à Presidência da República e do vereador Gilberto Natalini ao Governo do Estado, iniciaram essa discussão programática com a sociedade.

O primeiro encontro aberto com este objetivo está marcado para segunda-feira, dia 24 de fevereiro, às 19h, no Sindicato dos Padeiros (Rua Major Diogo, 126, Bela Vista)

Participam da organização do movimento, entre outros, Luiza Erundina (PSB), Walter Feldman (PSB/Rede), Marcio França (PSB), Ricardo Young (PPS/Rede), Gilberto Natalini (PV), Eduardo Jorge (PV), Pedro Dallari (PSB), João Paulo Capobianco (Rede), Antonio Claudio Mariz de Oliveira (PSB), Célio Turino (Rede), Bazileu Alves Margarido (Rede), Muna Zeyn (PSB), Rosana Chiavassa (PSB), Mara Prado (Rede), Marcela Moraes (Rede), Arnaldo Juste (PV) e Maurício Huertas (PPS/#Rede23). 

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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

PT experimenta tática "red bloc" contra oposição

Diz o ditado: "O que fulano fala não se escreve". No caso, o fulano é Lula, que tinha acabado de vir às redes falar com seus milicianos virtuais exatamente sobre o (mau) uso da internet.

Quem conhece o modus operandi petista não se deixou enganar: enquanto o comandante pregava uma falsa paz, o exército vermelho da estrela entendeu o recado cifrado, empunhou as armas e partiu para a guerra.

Tudo historinha para boi (o povo?) dormir. É a tática "red bloc" na mídia. Virulência verbal, bravatas, agressão, desqualificação pessoal, ataques em bando, repetição de uma mentira até que pareça verdade. Discípulos de Goebbels? Afinal, a própria presidente Dilma já explicitou seus métodos e princípios: "Vale fazer o diabo para ganhar uma eleição".

Nada que surpreenda, quando a versão tupiniquim da fada Sininho trocou a Terra do Nunca do Peter Pan pela terra-de-ninguém dos black blocs, e a princesa Sheherazade saiu das páginas de As Mil e Uma Noites para repetir mil e uma bobagens como "estrela" da emissora do Silvio Santos.

Estrelas, histórias... A realidade supera a ficção. Tape o nariz e seja bem-vindo ao mundo da política.

Surgiu no twitter uma comparação precisa: "Sabe qual a diferença entre a política no Brasil e o velho oeste americano? (...pausa dramática...) É que nos tempos do bang-bang quem ostentava a estrela no peito era o mocinho". (Tóiiimmmm!)

Bateu o desespero no PT, é inegável. O destempero verbal e o desequilíbrio psicológico são notáveis e expressam certamente o medo de perder o poder. Possibilidade iminente quando 60% da população manifesta o desejo de mudança. Ulalá!

A agressividade, que antes era notada apenas nos "militontos" virtuais, subiu ao patamar real. Da presidente da República ao presidente do partido, todos aumentaram o tom beligerante. Ou foi o nível dos dirigentes petistas que caiu (também parece plausível), junto com os índices de aprovação do governo e do grau de tolerância do povo.

É criticada a "cara de pau", a "guerra psicológica", o "novovelhismo" e o "neopassadismo"... DA OPOSIÇÃO! Quando as mesmas adjetivações seriam mais apropriadas a qualquer petista no divã ou no espelho. Estão aí há 12 anos e não disseram a que vieram! A incomPTência domina!

A fórmula dos postes de Lula parece estar se esgotando... É o apagão energético e político, o ocaso do PT. Um fala besteira e logo contagia suas réplicas: do "pessimismo" da oposição apontado por Dilma, à "miopia" e "pobreza de espírito" da elite diagnosticada pelo elitista Haddad.

Teve também Padilha, o ex-ministro da Saúde e pré-candidato petista ao governo paulista, uma espécie de "novo Haddad", e que, como bem relata editorial da Folha de S. Paulo, "entregou-se a um exercício de reinterpretação da história, ao criticar a política de segurança da administração tucana".

"O PCC é uma criação dos 20 anos do governo do PSDB, não existia antes e hoje tem", disse, em entrevista à Folha. A facção criminosa, na verdade, surgiu em 1993, no governo Fleury, do PMDB, aliado de primeiríssima hora de Lula e Dilma.

A cada declaração desastrosa do candidato petista, é impossível não lembrar dos velhos bordões de Jô Soares para o personagem homônimo: "Cala a boca, Padilha", ou "Vai pra casa, Padilha!". Quem tem a idade do ex-ministro (que não aparenta, mas tem só 42 anos) não esquece. Apropriadíssimo!

A realidade é uma só: na falta do que mostrar de concreto, já que seus governos são marcados pela inoperância e incapacidade, sem falar nos desvios éticos, o PT apela para o blablablá, o nhenhenhém e o mimimi: Rui Falcão, Padilha, Haddad... Que fase!

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Carlos Fernandes: "A decisão de São Paulo"

É conhecido o peso decisivo do maior colégio eleitoral do país na eleição presidencial. Mas, sobretudo em 2014, com o crescente esfacelamento do projeto petista de poder e o surgimento de uma candidatura oposicionista consistente e capacitada a partir de uma dissidência do governo federal, São Paulo tem que acertar o passo e liderar a era “pós-PT”.

A unidade em torno do projeto nacional – e aqui citamos nominalmente: o avanço e a esperança que significa a coligação entre Eduardo Campos e Marina Silva – deve estar acima dos interesses locais, partidários e pessoais.
Não há margem para erros ou improvisações. Tirar o PT da Presidência da República passa necessariamente por termos uma candidatura viável, consolidada e vitoriosa ao Governo do Estado.
Em 2010, o eleitor paulista teve no candidato ao Governo Fabio Feldmann uma opção qualificadíssima, que refletia o “novo” representado por Marina, com todas as características desejáveis da Nova Política e da Sustentabilidade.
Porém, avaliando os números daquela eleição, constatamos que enquanto Marina obteve expressivos 20,77% do voto paulista, Feldman ficou com apenas 4,13%. Ao mesmo tempo, o presidenciável tucano José Serra teve 40,66% em São Paulo, enquanto o governador Geraldo Alckmin foi eleito com 50,63%.
Ou seja, ficou evidente que a maioria absoluta do eleitorado de Marina simplesmente não votou no candidato “novo”, optando em grande parte pelo experimentado Alckmin. É um dado a ser levado em conta. O que deseja o eleitor de São Paulo e como contribuir para o bem do Brasil?

Carlos Fernandes é presidente municipal do PPS de São Paulo e foi subprefeito da Lapa (2010/2011) 

Shownarlismo petista: a vergonha nossa de cada dia!



Fica até difícil encontrar palavras para comentar as ações de um sujeito como Paulo Henrique Amorim, jornalista contratado da TV Record do Bispo Edir Macedo, aliado incondicional do governo e considerado "blogueiro amigo", um daqueles apaniguados com verba estatal para fazer "shownarlismo" pró-PT.

Condenado por injúria (na verdade, racismo não-declarado contra um colega negro), usou o argumento da SENILIDADE para atenuar sua pena. Compreende-se, vistos os ataques diários, totalmente desequilibrados, que dispara contra qualquer ameaça de oposição a Lula e Dilma. Não vamos, portanto, atacar uma pessoa que se declara decréPiTa.

Piedade, senhor!

Aliás, o vídeo acima dispensa críticas. Mas um atendimento especializado cairia bem...

Na época da ditadura militar, o jornalismo era uma trincheira da liberdade e da luta pela democracia. Muitos bons profissionais (com ou sem diploma) se formaram naqueles tempos e alguns estão aí até hoje. Havia uma cultura inegável de "esquerda" nas redações dos principais veículos.

O PT no governo, entre outros malefícios que faz diariamente às instituições democráticas e aos princípios republicanos, confunde a cabeça de muita gente e bagunça completamente os conceitos de "esquerda" e "direita". Afinal, Lula e Dilma se forjaram na esquerda tradicional.

Uns tentam convencer que ainda é de "esquerda" um governo que se alia à podridão da velha política, misturando no mesmo balaio Sarney, Collor e Maluf, passando pelo conservadorismo ultradireitista que une homofóbicos a ruralistas, banqueiros com lucros recordes a mensaleiros condenados por corrupção.

Esses mesmos que se dizem de "esquerda", procuram rotular de "direita" todos aqueles que se opõem ao modus operandi da politicalha criminosa praticada pelo PT e seus aliados fisiológicos nos últimos 12 anos. Conclusão: há uma falsidade ideológica patrocinada pelo governo (literalmente, com dinheiro tirado dos cofres públicos) para destruir na fonte qualquer sombra oposicionista.

Assim, o simplismo da fórmula petista coloca de um lado o jornalismo cooPTado, auto-intutulado de "esquerda", e do outro o chamado PIG (Partido da Imprensa Golpista), ou seja, é de "direita", de "elite" e "golpista" todos aqueles que não se rendem aos métodos do PT e a essa vergonha alheia que dia após dia nos causa mais repulsa e indignação.

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Fernando Rodrigues: "O centro invisível"

Ontem a Folha promoveu um debate na sua página A3 sobre violência e direitos humanos. O pano de fundo: um adolescente negro acusado de praticar furtos em série no Rio acabou agredido e preso nu, pelo pescoço, a um poste.

A apresentadora de TV Raquel Sheherazade escreveu a favor do direito de cidadãos se defenderem e de prenderem quem os ameaça. O deputado federal Ivan Valente, do PSOL paulista, rebateu dizendo que "ressuscitou-se o Pelourinho 125 anos após o fim da escravidão".

Gostei de ler os dois artigos com opiniões bem antagônicas. Mas ficou para mim uma dúvida: onde está o centro? Afinal, o Brasil não é só a busca do direito de prender pessoas com as próprias mãos. Tampouco é um país no qual a escravidão seja cotidiana, apesar do lamentável e bárbaro episódio do Rio.

Tem havido uma polarização exacerbada nos grandes debates brasileiros. É sempre fácil enxergar as posições nos dois extremos do espectro político-ideológico. Só o centro parece invisível. Até porque uma análise moderada será logo classificada "de direita" pelos mais liberais. Ou de "condescendente com a esquerda" por quem luta na trincheira do conservadorismo.

A grande vantagem --alguns dirão desvantagem-- da história de conchavos sociais do Brasil foi ter colocado de pé uma nação quase sem conflitos sangrentos generalizados. A disposição para encontrar saídas pactuadas deu-se em vários momentos, como no fim da ditadura militar. Na cultura brasileira, o extremismo de direita ou de esquerda nunca teve tanto espaço como em países vizinhos na América Latina.


Nesta semana, a morte do cinegrafista Santiago Andrade também produziu grande polarização. Sem contar a tentativa de alguns querendo se apropriar da tragédia alheia. Há hoje muitas ideias fora do lugar no Brasil. É um enigma aonde isso vai dar, sobretudo em ano eleitoral. 

(Artigo do jornalista Fernando Rodrigues publicado nesta quarta na Folha de S. Paulo)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Governo x Oposição: "Cara de pau", "neopassadismo", "novovelhismo"... PT, saudações!


Quem é "cara de pau", presidente Dilma? Quem é "pessimista"? São os 60% da população que pedem MUDANÇAS no país? Ou é quem vai às ruas contra os gastos abusivos da "Copa das Copas" (esta que já matou uma dezena de operários em obras aceleradas e superfaturadas)? Ou é quem pede Saúde e Educação "padrão Fifa", ironizando o seu governo que fica de joelhos diante das exigências lucrativas dos "donos" do futebol mundial?

Cara de pau é o seu partido, presidente, que completa 34 anos traindo os antigos eleitores, militantes e simpatizantes. Cara de pau é fazer vistas grossas ao crime organizado, é se aliar à podridão da política para se agarrar ao poder sem levar em conta o bem comum, é ser omissa e inoperante diante da onda de violência que cresce nas grandes e médias cidades.

Cara de pau, presidente, é ver a economia afundar e dizer que é "guerra psicológica" da oposição. Cara de pau, Dona Dilma, é dizer que vale "fazer o diabo" para ganhar uma eleição. É transformar o Estado num puxadinho petista. É pedir para o povo gargalhar se culparem um raio pelo apagão e, ato contínuo, jogar a culpa no fenômeno! Ó! Raios! 

Cara de pau, presidente, é posar para fotos num beija-mão vexatório com antigos inimigos: Maluf, Collor, Sarney, Renan. É atentar contra as instituições democráticas e os princípios republicanos. É rasgar o Código Florestal, é acabar com os índios, é abrir os cofres públicos para a mídia conivente e os blogueiros amigos.

Cara de pau, presidente, é usar bolsas e programas assistenciais como cadastro eleitoral. É perenizar a miséria em troca de votos. É criar cabide de emprego. É empacar o PAC. É maquiar a falta de médicos, que não foi enfrentada em 11 anos de governo do PT, inventando o tal "Mais Médicos" para tentar emplacar mais um poste de Lula.

Dá para listar aqui uns 13 mil motivos para defendermos o PT fora do governo, presidente, e constatarmos o esgotamento do atual modelo. Ter bom senso e preservar a autoestima dos brasileiros é torcer e trabalhar para que vocês saiam rapidinho da presidência, antes que o modus operandi petista contamine ainda mais a máquina estatal e coloque em risco as conquistas democráticas dos últimos 30 anos.

Não é o fim do mundo, não, presidente. É só o fim do ciclo petista no poder, graças aos céus, para o bem da Nação. Já bateu o desespero na "companheirada".

Cada um mede o outro com a sua própria régua. Por isso o presidente do PT, Rui Falcão, deputado estadual por São Paulo, fala com tanta propriedade de "especialistas em mofo" e "doutores em bolor que não conseguem mudar o Brasil."

Reproduzindo as parcas e porcas palavras de Rui Falcão: vocês é que são todos "partes de um mesmo corpo, farinha do mesmo saco". Juntam o "neopassadismo" com o "novovelhismo". Basta ler uma página do Diário Oficial ou acompanhar qualquer pronunciamento de um petista nos últimos tempos. Dá asco.

"Enxergamos a mais patética, dramática e caquética cena da velha política. O que chamam de novo é cobrir de paetês velhas oligarquias e falsas alegorias?". É isso! Fazemos deste questionamento do presidente do PT um retrato instantâneo, pronto e acabado do fim de linha vivido por este governo, o partido dominante e seus satélites fisiológicos.

"O neopassadismo quer trazer alguns dinossauros de volta à política brasileira e, no novovelhismo, pensam que com discursos fáceis serão capazes de mudar o Brasil e de fascinar os brasileiros". Pois é, o velhaco Rui Falcão acha que basta ainda um discurso bonito e uma propaganda bem editada sobre o "novo" (outra vez?) para enganar o eleitor em 2014. Dessa vez, meus caros, não vai ser tão simples. 

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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A insegurança da cidade e um prefeito inseguro

Artigo de Carlos Fernandes (PPS/SP)
O pouco que a administração anterior avançou em termos do resgate do sentimento de coletividade, de urbanidade e de compartilhamento responsável do espaço público, o prefeito Haddad conseguiu destruir em 13 meses de uma gestão desastrosa à frente da Prefeitura de São Paulo.

Vejamos, dentro de uma lista infindável de provas de omissão e despreparo, dois exemplos de conquistas da cidadania que foram simplesmente desmanteladas pelo prefeito "novo" do PT: a Lei Cidade Limpa e a Operação Delegada.

A primeira, que vinha funcionando muito bem e recebeu aprovação quase unânime da população, ao diminuir bastante a poluição visual nos últimos anos e regulamentar a publicidade exterior e as fachadas de lojas e de prestadores de serviços, teve afrouxada a fiscalização. Não se sabe o porquê, mas é possível imaginar.

Resultado: de cartomantes a despachantes, da lavagem de estofados a empréstimo de dinheiro, as faixas coloridas voltaram a dominar os postes e as ruas de São Paulo. Anúncios, banners, cartazes, cavaletes, letreiros, luminosos: a cidade caótica vai se readaptando às vistas grossas da gestão petista.

O que antes era coibido e controlado, provocando a justa aplicação de multas ou levando até mesmo à prisão de infratores, seja por crime ambiental ou abuso da fé pública, em ação conjunta do poder público (Prefeitura e Polícia), hoje foi relegado ao vasto rol de atribuições dos agentes vistores nas subprefeituras. 

Ou seja, devido às inúmeras limitações impostas ao trabalho diário destes servidores responsáveis pela fiscalização de obras e outras flagrantes irregularidades, seria ingenuidade supor que eles iriam conseguir atender a contento também a demanda da Lei Cidade Limpa.

Aí caímos em outro problema paralelo: o abandono da Operação Delegada, que permitia que policiais militares trabalhassem em parceria com a Prefeitura, nos horários de folga, aumentando a segurança da população e o respeito às leis, necessidade vital para o cotidiano da administração. 

Então candidato, Haddad defendia a ampliação desta cooperação entre a Prefeitura e o Governo do Estado, atuando não apenas na repressão ao comércio de produtos ilegais, que foi uma das ações mais corriqueiras durante a gestão Kassab, mas também na segurança propriamente dita.

Eleito prefeito, o petista abandonou a promessa de campanha (mais uma), e contribui para que a segurança entre em colapso, talvez prevendo ganhos eleitorais em 2014 e 2016.

A Operação, que contava com 3.439 policiais militares, caiu vertiginosamente para uns heróicos profissionais que ainda toleram o descaso da Prefeitura, recebendo com um mês de atraso pelo trabalho realizado e sem condições nem de reprimir o comércio ambulante e a pirataria, nem de aumentar a sensação de segurança dos cidadãos.

Casos de furto e roubo, como na chamada "saidinha de banco", são exemplos concretos de ocorrências que diminuem muito com a presença ostensiva do policiamento nas ruas. O que havia de benéfico para todos com o reforço, em pontos estratégicos, destes PMs que aderiram à Operação Delegada, voltou à estaca zero.

Não por acaso, ZERO é também a nota que a maioria da população vem dando ao prefeito Fernando Haddad pelo que (não) realizou neste primeiro ano de gestão. A cidade precisa recuperar a sua autoestima, o respeito ao espaço urbano e garantir a segurança da população. O PT e Haddad não podem simplesmente lavar as mãos e fingir que isso não é com eles. 

A falta de segurança em São Paulo é fruto também deste mesmo sentimento de insegurança por termos no cargo de prefeito um sujeito que, como se diz, "não nasceu pra coisa"; não demonstra vontade nem o mínimo talento para gerenciar a complexidade desta metrópole e zelar pelo bem comum. A gestão Haddad é de dar dó.

Carlos Fernandes é presidente municipal do PPS de São Paulo e foi subprefeito da Lapa (2010/2011)

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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sétimo dia do "beijo gay". Sepultamos o preconceito?

Há exatamente uma semana, na exibição inédita (e histórica) de sexta-feira do último capítulo da  novela "Amor à Vida" e na reapresentação do sábado, o assunto mais celebrado nas redes sociais e na mídia tradicional foi o esperado "beijo gay".

Ouviram-se gritos e festejos incontidos, vazados pelas janelas e paredes conjugadas da tradicional família brasileira.

Aparentemente - e contrariando algumas previsões catastrofistas - todos sobrevivemos.

Mas, neste sétimo dia, será que purgamos verdadeiramente da nossa alma o preconceito e a homofobia? Ou sepultamos apenas mais um tabu da TV brasileira? Diga-se, aliás, não da TV como um todo, que já havia exibido outros beijos de casais homossexuais. E sim da toda-poderosa Rede Globo, campeã de audiência, referência de qualidade e formadora de opinião, em seu produto mais nobre: a "novela das nove" (antigamente era "das oito", mas mudam os costumes e tudo avança um pouco mais).

Do primeiro beijo na boca em uma telenovela, em "Sua vida me pertence", de 1951, entre Walter Forster e Vida Alves, ao primeiro beijo entre dois homens, protagonizado por Félix (Matheus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), o "ex-vilão" com a legítima "mocinha" da história, passaram-se longos 63 anos.

As novelas globais já exibiram - de forma mais explícita ou implícita - estupro, incesto, homicídio, suicídio, parricídio, infanticídio, fratricídio, sequestro, aborto, eutanásia, tortura, prostituição, guerra, adultério, masturbação, roubo, sevícia, escravidão, overdose, perjúrio, calúnia, adulação, complacência, maledicência, ironia, mentira, avidez, corrupção, inveja, cobiça, orgulho, ETs, fantasmas, lobisomens, vampiros.... ufa! Mas ainda faltava o "beijo gay".

Curioso que sempre existiram personagens gays nas novelas, séries, programas de humor e de auditório. É só puxar pela memória: sempre há uma bichinha caricata, ou um enrustido, um transformista, um transsexual, um casal discreto ou um artista descolado para preencher a cota politicamente correta.

O primeiro casal homossexual apresentado abertamente (pero no mucho) foi na novela “O Rebu” (1975): o personagem Cauê (Buza Ferraz) era um michê que mantinha uma relação afetivo-sexual com o banqueiro Conrad Mahler (Ziembinski).

Houve um primeiro "beijo gay" (que foi sem nunca ter sido) na novela“A Próxima Vítima”, em 1995: vetado pela Globo, aconteceria entre o casal Sandrinho (André Gonçalves) e Jeff (Lui Mendes) que, além da questão homossexual envolvia também o preconceito racial. A história do casal fez grande sucesso e eles terminaram casados. Porém, as intimidades se resumiam a abraços e mãos dadas.

Dez anos depois, em “América” (2005), houve outro beijo censurado: agora entre os personagens Junior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Cordeiro); Antes, em "Mulheres Apaixonadas" (2003) houve um beijo insinuado entre Clara (Alinne Moraes) e Rafaela (Paula Picarelli).

Em “Duas Caras” (2008), havia Bernardinho (Thiago Mendonça), que protagonizou um triângulo amoroso e assumiu até uma dupla paternidade. Tudo sem beijo. Também em “Insensato Coração” (2011) havia pelo menos cinco personagens homossexuais. Todos, mesmo os casados, vivendo relações insinuadas.

A hipocrisia é realmente incrível: a TV já exibiu os crimes do código penal de A a Z, ensinou o descumprimento dos Dez Mandamentos de forma variada, escancarou o sangue, a morte, a miséria humana e todos os defeitos conhecidos do homem, da mulher e até de criaturas folclóricas e fictícias.

Na própria novela "Amor à Vida", tudo parecia dentro dos conformes: nem as escapadas do afetado Félix com o seu Anjinho, após encontros insuspeitos no shopping ou na academia, escondidos da mulher, apresentava algum potencial maior de chocar a sociedade que um beijo na boca. Interessante.

Enfim, o tão polêmico beijo aconteceu. O tabu da TV está morto e enterrado. Gays podem viver mais tranquilos na ficção. Na vida real... bom, aí já é outra história.

Daqui a alguns anos, talvez, todos poderão sair às ruas sem o risco de serem agredidos (verbal ou fisicamente), surrados e mortos.

É gratificante saber que o mundo não acabou com um beijo. Porém, nem o preconceito, infelizmente.

Sete dias depois, o assunto da novela já esfriou. Nas redes, prosseguem relatos diários de gays que continuam sofrendo. Hetero? Homo? Bi? Trans? Além dos rótulos, somos todos humanos, ou não? Que venham dias melhores...

Fernando Rodrigues: "A pior semana"

A semana que acaba hoje já é, de longe, a pior deste ano para Dilma Rousseff. As desventuras em série da presidente foram várias.

Um apagão deixou sem luz seis milhões de pessoas. Uma médica cubana desertou do programa Mais Médicos. O PMDB espetou (pela centésima vez) a faca na barriga da presidente para arrancar mais cargos e benefícios. Mensaleiros continuaram a ser presos, seja na penitenciária da Papuda ou na Itália.

De quebra, continuam a acontecer manifestações violentas em algumas cidades. O transporte público urbano é um gargalo incontornável no nos próximos meses ou anos. Este verão tem sido um inferno para quem vive nas grandes metrópoles.

Muito do que há de ruim no país não é culpa da presidente da República. Aliás, as coisas poderiam estar piores se o Brasil não tivesse experimentado a sequência FHC-Lula-Dilma no Planalto. Mas não importa. A sensação geral de incômodo é uma realidade --e isso explica grande parte das pessoas desejarem mudança na forma de governar, como bem detectou o Datafolha.

O momento é especialmente delicado para o governo porque há fatores imponderáveis à frente. Os problemas infraestruturais são graves e insolúveis no curto prazo. Ninguém sabe se haverá novos apagões. Nesse ambiente, o principal nó é o político.

Os partidos aliados a Dilma sabem que esta é a hora de esfolar a presidente. O prazo termina em junho --quando se fecham todas as alianças para a eleição de outubro. A partir de julho, quem está dentro não sai; quem está fora, não entra.

A correlação de forças de cerca de dez partidos políticos no condomínio governista se define nos próximos cinco meses. A hora de formatar o fatiamento do poder é agora. A fórmula valerá até 2018 no caso de vitória dilmista. É por essa razão que tudo será muito tenso, pelo menos, até o final de junho. E outras semanas piores podem vir por aí.

(Artigo do jornalista Fernando Rodrigues publicado neste sábado na Folha de S. Paulo)

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Demétrio Magnoli: "Flores no jardim"

Há indícios de que a aliança PSB-Rede pode evoluir para a contestação dos pilares da velha ordem
 
Temos o hábito de desconfiar da palavra dos políticos, especialmente na estação das eleições. O ceticismo é sempre saudável, mas não convém descartar programas de campanha sem uma leitura atenta. 

As flácidas 70 páginas das diretrizes programáticas da aliança PSB-Rede, anunciadas por Eduardo Campos e Marina Silva, têm um pouco de tudo --e, na hora decisiva, talvez sejam quimicamente reduzidas ao papo furado convencional. 

No meio daquele jardim monótono, porém, destacam-se três ou quatro flores incomuns: os sinais de uma ruptura potencial com a velha ordem política abrigada no casulo do lulopetismo.

O compromisso com uma reforma do Estado consubstancia-se nas metas de "consolidar uma burocracia pública meritocrática" e "diminuir a quantidade de cargos de livre provimento". A persistência do patrimonialismo, atualizado na "era Lula", expressa-se antes de tudo na captura da máquina da administração pública pela elite política. 

Os partidos brasileiros não existem para oferecer propostas doutrinárias à sociedade: são ferramentas destinadas a organizar a pilhagem de um tesouro, formado por cargos em ministérios, autarquias e empresas estatais.

"Presidencialismo de coalizão" é o eufemismo cunhado por acadêmicos cínicos para nomear um sistema político hostil ao interesse público, endemicamente corrupto, que se reproduz parasitando as pessoas comuns. Nas jornadas de junho, a sociedade rebelou-se precisamente contra isso, provocando pânico visível entre gregos e troianos.

Campos e Marina dialogam com as ruas quando fazem da reforma do Estado a condição prévia de uma reforma política substantiva. Se tiverem a coragem de enfrentar a velha ordem, rompendo com as máfias encapsuladas em todos os partidos, adicionarão números radicais à equação do emagrecimento dos cargos de indicação política.

A proposta de "repactuar o federalismo brasileiro" adquire densidade no diagnóstico crítico da concentração de receitas na União e no compromisso com uma reforma tributária destinada a "assegurar maior autonomia aos Estados e municípios". A cíclica peregrinação de governadores e prefeitos ao Planalto, num vergonhoso ritual de mendicância, denuncia a natureza farsesca da Federação e esvazia o sentido das escolhas políticas dos eleitores.

O poder discricionário quase absoluto do governo central sobre tributos arrecadados em todo o país funciona como instrumento de chantagem e cooptação. No fundo, encerradas as eleições, configura-se algo como o Partido do Planalto: uma santa aliança dos governantes, em todos os níveis, disfarçada por hipócritas menções à cooperação administrativa suprapartidária.

A ex-ministra Gleisi Hoffmann, braço direito de Dilma Rousseff, acusou Eduardo Campos de nada menos que "ingratidão". Essa flor do Lácio da velha ordem, esplendor e sepultura de costumes políticos anacrônicos, invocou supostos deveres de lealdade do governador de Pernambuco, derivados do "apoio financeiro que a União deu àquele Estado". Nas suas palavras deploráveis, dignas de uma monarquia, encontra-se a melhor justificativa para a reorganização do pacto federativo.

Campos e Marina já não são mais dissidentes do bloco de poder lulopetista. A constatação de que "a sociedade brasileira não tolera mais este velho pacto político que mofou" transfere-os para o campo da oposição. A crítica ao "receituário minimalista" do "choque de gestão", empregada por um PSDB carente de vitalidade nas últimas eleições presidenciais, e os ensaios na direção das reformas do Estado e da Federação são indícios de que a aliança PSB-Rede pode evoluir, surpreendentemente, para a contestação dos pilares da velha ordem.

Papo de campanha? Conversa mole de candidato minoritário em busca de um lugar ao sol? É possível. Mas convém prestar atenção nessas flores coloridas que nasceram em terra árida.
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Demétrio Magnoli: ´Reinventar a esquerda no Brasil´