sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Dois artigos do dia sobre o PT, o PSDB e Kassab

Convivência cordial entre o PT e o PSDB é apenas aparência

APESAR DAS APARÊNCIAS E DA IMENSA CONFUSÃO DE ALIANÇAS E DE ATORES NA ELEIÇÃO DE SÃO PAULO, É UM CONTRA O OUTRO

ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA

Acabou a solenidade do Minha Casa, Minha Vida, a presidente petista Dilma Rousseff correu para uma conversa de três horas com o padrinho Lula, enquanto o governador tucano Geraldo Alckmin foi trocar ideias com o prefeito Gilberto Kassab.

Os dois movimentos reforçam a polarização PT-PSDB. Apesar das aparências, da convivência cordial de Dilma e Alckmin e da imensa confusão de alianças e de atores na eleição de São Paulo, é um contra o outro. Os demais girando como satélites.

O PT mudou muito, mas é o PT. O PSDB está totalmente rachado, mas é o PSDB. As duas novidades são a entrada em cena do PSD de Kassab, que oscila entre ambos, e a tentativa do PMDB de lançar a candidatura de Gabriel Chalita para recuperar liderança política em São Paulo.

É por isso que, ao oferecer um nome -qualquer nome- do seu PSD para Lula como vice do petista Fernando Haddad, Kassab confundiu ainda mais o cenário e deixou os dois lados atordoados. Serviu como pausa para pensar.

Se o PT já engoliu a candidatura Haddad só porque Lula quis, é muito difícil assimilar um vice indicado por Kassab. Lula até gostaria de reunir o máximo de forças políticas e isolar os tucanos, mas o prefeito é a alma da campanha petista. Sem Kassab, quem será o alvo? Qual será o discurso?

No caso do PSDB ocorre o mesmo, em sentido contrário. A eleição, a vitória e a gestão de Kassab na prefeitura são indissociáveis dos tucanos, o que vale mais para o ex-governador José Serra, mas vale também para Alckmin, queira ele ou não.

Quem é mesmo o seu vice? Guilherme Afif Domingos, que é do PSD, pré-candidato de Kassab à sua sucessão.

Como, então, o PT poderia usar seus palanques para defender ou no mínimo ignorar Kassab? E como o PSDB poderia se esgoelar para criticar a gestão dele?

O plano A de Kassab segue sendo lançar o cabeça de chapa e ter apoio de Alckmin, que é quem dá as cartas tucanas no Estado e na capital e está atolado em várias candidaturas, três delas de secretários de seu governo. Preferia Bruno Covas, recuou e virou uma esfinge.

Kassab, portanto, é o centro do universo neste momento em São Paulo. Não apenas por ser formalmente o prefeito, mas por aliar índices medíocres de popularidade à capacidade política de criar um novo partido tão eclético e por ameaçar desequilibrar para um lado ou para o outro a polarização PT-PSDB.

O excesso de interrogações ainda é, assim, o forte da campanha paulistana. O que há de concreto é uma transição geracional, com nomes e caras novas, e um novo peso local para Lula. A capital nunca foi seu forte, mas isso parece coisa do passado.

Mais uma vez, o jogo nacional começa a se definir por São Paulo e pela disputa PT-PSDB. E o PSDB parece claramente em desvantagem.


(Análise de Eliane Cantanhêde, publicada na Folha de S. Paulo de sexta-feira, 13 de agosto de 2011)


O nome do jogo

DORA KRAMER
COLUNISTA DO ESTADÃO

Os movimentos de Gilberto Kassab na preparação da disputa pela Prefeitura de São Paulo parecem confusos e contraditórios, mas não há nada mais organizado e coerente da perspectiva de alguém cujo objetivo principal é consolidar a posição de peça importante no jogo da política.

E o nome do jogo dele é sobreviver ao fim do mandato de prefeito e chegar ao governo de São Paulo. Seja em 2014 ou 2018.

Kassab nunca pretendeu consertar o mundo. Quando explicitou a indefinição ideológica do PSD, deixou bem claro que ao fundar um novo partido sua intenção não seria liderar processos de aperfeiçoamento do sistema partidário ou tornar-se um pregador desta ou daquela corrente de pensamento.

Trata-se de um pragmático assumido. Marca a meta e sai ao alcance dela. Quando quis se livrar do DEM em derrocada, foi em busca de fusões com outros partidos: primeiro o PSB, depois o PMDB.

Não deu certo. Criou, então, a própria legenda. Arregimentou correligionários insatisfeitos nos respectivos partidos, avisou aos novos navegantes que, ali, fidelidade partidária seria regra, apresentou seus serviços de sublegenda aos governadores de todos os Estados, formou fornida bancada na Câmara, cumpriu as exigências legais e registrou o PSD.

Como aliado, o partido disputará prefeituras em boa parte do País, mas é em São Paulo que Gilberto Kassab investe em seu destino.


(Artigo de Dora Kramer, publicada no o Estado de S. Paulo de sexta-feira, 13 de agosto de 2011)